ARTIGO – Vício no erro

Absorvendo o silêncio e a calma provocados pelo lockdown do último feriado santo, pensei na falta que faz um governo federal competente, responsável e comprometido com seu povo. O país está desorientado. Governadores e prefeitos não se entendem. Presidente e ministros não se entendem. Juízes não se entendem. Faltam vacinas, insumos, kit intubação. O sistema de saúde entrou em colapso, o SAMU e os profissionais da saúde esgotados, os necrotérios e os cemitérios esgotados, leitos esgotados. Brasileiros morrendo a rodo, auxílio emergencial insuficiente, explosão da pobreza e o vírus em mutação acelerada. Estamos vivendo um caos. Os Estados que ainda estão sob controle têm governadores sensíveis, humanistas e determinados como o do Acre, apesar de todos os percalços logísticos.

A pandemia no Brasil só veio tirar o véu sobre muito do que já sabíamos: Da importância fundamental do SUS, da ciência, do Butantã, da Fiocruz, da imprensa, da educação e da cultura. Da desvalorização dos professores, dos artistas e dos profissionais da saúde. Do abismo das classes sociais, da concentração de renda, do enfraquecimento dos trabalhadores. Da ignorância, egoísmo e canibalismo da maioria esmagadora das elites econômicas e políticas. Da monstruosidade de nossos representantes políticos e do mercantilismo da fé.

O ego e sua vaidade, essa deficiência que gera um buraco impreenchível, são a causa da maioria dos problemas da humanidade. Inclusive da disseminação da terrível pandemia da Covid-19. Pessoas doentes de vaidade. Não conseguem ficar fora do alcance de olhares alheios por 18 meses, nem mesmo sabendo que isso pode custar-lhes a própria vida ou a vida das pessoas que amam.  Que dirá, então, a vida de desconhecidos, está pouco ou nada lhes importa. E sempre foi assim. Tem cura. Mas é um vício e, como todo vício, sua sedução por toda a cultura popular é maior que o desejo de se curar.


Beth Passos é jornalista 

E-mail: [email protected]


Assuntos desta notícia