ARTIGO – Meu caro amigo

  • – Oi, Rô. Notícias?
  • – Aqui tranquilo, Yanita. Fui ao supermercado agora e me senti tão viva. Voltei a mil, pedalei 45 minutos, fiquei suada e vermelha e, de novo, me senti cheia de sangue correndo pelas veias. Vou tomar banho ouvindo Bethânia. Tudo péssimo, mas tudo lindo.
  • – Ai, que ótima. Amei. Também acabei de lavar dois banheiros e tô boazinha da cabeça! Que loucas!

Essa sou eu e Yana, minha amiga mais querida. Nos falamos quase todos os dias, bem sem filtro bem vida real, bem que a gente tá engolindo cada sapo no caminho, e a gente vai se amando que, também, sem um carinho ninguém segura esse rojão.

Já falei dela algumas vezes por aqui. Nos conhecemos há anos em uma situação de trabalho. Mesmo ali, no primeiro contato, entendi que aquela era uma pessoa grande. Gente que não tem medo da vida, sabe assim? Pra mim não há nada mais lindo do que essa coragem de meter o coração pelos atalhos (como nos diz Rui Pires Cabral).

Trabalhávamos as duas num horror de lugar, uma chefe insuportável. Pra vocês entenderem a situação, meu esforço para parecer satisfeita era tamanho que me doíam todos os músculos do rosto. Na tentativa de falsear um sorriso, cavei duas rugas enormes perto da boca e desde então, me presto a preenchimentos semestrais para conter a cara de poucos amigos que o escritório me deixou.

Em uma ocasião, um prestador de serviço que contratamos, ao ser pressionado injustamente por ela – a chefe – perdeu a linha e lhe disse tudo o que ensaiávamos dizer nos intervalos de almoço, quando não havia ninguém por perto, quando a nossa companhia nos fazia brabas e destemidas. Rimos tanto, nervosas e invejosas, que não fomos capazes de chamar atenção do menino pela descompostura. Foi a desgraça que nos uniu.

Pensei em lhes contar de minha amiga para lembrar do quão importante é investir nos nossos pares, nas nossas interlocuções mais livres de censura. Amigos são ouro em pó. Há de se ter alguém por perto para os dias em que chove, e para os outros em que bate o sol. Alguém que quer mesmo saber a resposta quando pergunta se está tudo bem. Alguém que valorize o sentir-se viva, o suor, o banho, a faxina e Bethânia. É o que lhes desejo com força.

E aproveito para repetir a pergunta: como vocês estão? Aqui, tudo péssimo, mas tudo lindo. Boa semana, queridos.

(*) Roberta D’Albuquerque é psicanalista, autora de Quem manda aqui sou eu – Verdades inconfessáveis sobre a maternidade e criadora do portal A Verdade é Que…

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