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Cláudio Porfiro
Cláudio Motta-Porfiro é romancista, cronista, poeta e palestrante. Membro da Academia Acreana de Letras. Email: [email protected]

Retratos caóticos de almas estupidificadas

Naquelas fatídicas noites em que a guerra civil espanhola ficava à espreita dos comunistas, entre os becos e ruelas escusas de Barcelona, ninguém era de ninguém e a polícia do ditador Franco matava primeiro e averiguava depois. Homens mortos durante a madrugada amanheciam com as bocas cheias de formiga, literalmente, ou com o sangue ainda fresco a escorrer através da vala comum dos crimes insolúveis, posto que praticados pelos detentores do domínio.

É sempre assim que os fatos se desenrolaram pelos quatro cantos deste mundão de meu Deus. A morte emana do poder e as rixas e futricas também.

Foram estes alguns apontamentos deixados na minha caixa da correspondência eletrônica por essa má recomendada alma do outro mundo que se diz chamar Astrogildo Berimbau, o agora tido e havido espírito de porco cibernético.

E ele completou, mais tarde, ao meu ouvido, um pouquinho antes do primeiro sono:

– Manda quem pode e obedece quem tem juízo. Ou, quem não pode com o pote não pega na rodilha. – Coisa de nordestino acostumado aos jogos de efeito da língua pátria mãe gentil.

O jornaleiro Belizário La Redoma  –  o nome do revolucionário Berimbau, na Espanha  –  tinha por atividade, segundo a organização esquerdista, distribuir, entre as páginas de um jornal diário, panfletos com mensagens do comunismo aos simpatizantes da causa. Numa dessas noites sangrentas, em fins de 1936, tomou um tiro nas fuças e foi panfletar a partir do inferno. Pior é que ele tirou este escriba inconsequente para ser o seu porta voz cá entre os vivos. Aceito. Mas afirmo que nenhum vivente merece martírio desses vindo da parte de Deus. Dos cacetes!

Não há pior vida do que estarem juntos na mesma habitação os que estão desunidos no espírito. Se você é um sujeito calmo, nunca case com uma moça espevitada do juízo. No nosso caso, nada é tão ruim quanto andar de braços dados, na feira, com um indivíduo morto há mais de oitenta voltas. É quase como se esse espírito chato habitasse a minha reles matéria. Ninguém, lá nas habitações extraterrenas, disse a ele que eu sou um homem pacífico. Esconjuro!

Estou hoje de birra com ele. Trata-vos, sim, de um sujeitinho do tamanho de um jóquei pequeno, fala de taquara rachada, truculento, intolerante, extremista e fanático, tudo ao mesmo tempo, como se isso fosse possível numa alma só. Mas é. Falo-vos de um fanatismo exacerbado, porque é um camarada que não muda de ideia e, por conseguinte, não consegue mudar de assunto, isto por completo desconhecimento, desde sempre, das outras causas do mundo ao seu derredor.

É oportuno observar, cá de minha parte, que a única revolução realmente digna de tal nome seria a revolução da paz, aquela que transformaria o homem treinado para a guerra em cidadão educado para a serenidade, porque pela quietude haveria sido instruído. Essa, sim, seria a grande revolução mental, e, portanto, cultural, da Humanidade. Esse seria, finalmente, o tão falado homem novo.

Não vejo porque tanta valentia, se na hora do pipoco da bala também o brabo vai correr. É como o machão que estapeia a esposa quando chega em casa bêbado. Papai, o estivador hercúleo, dizia que tal ação é impetrada porque, no boteco, um sujeito metido a aperreado enxotou o covarde no rumo da residência.

Segundo relatos anteriormente anotados, Astrogildo Berimbau foi um homem de muitas facetas, até ser apanhado com a boca na botija por um marido manso, quando teve que fugir do Recife e procurar asilo em Barcelona.

A trajetória mambembe e quixotesca ao mesmo tempo começou aos quinze anos, no alto sertão da Paraíba, em Catolé do Rocha, sua terra natal, onde morava num pequeno sítio e vendia carne de bode na feira, aos sábados. Ele não criava nenhum tipo de animal. Por isto, suponho tratar-se de atividade eivada de vícios e corrupções de grande monta.

O Berimbau, hoje desmaterializado, é claro, ainda se diz muito escovado desde a primeira encarnação, em tempos feudais. Eu o afirmo malandro a partir das tripas secas e da medula arroxeada.

Então, perseguido pela polícia, em vista da atividade criminosa e da sodomia com as cabras, atravessou o sertão e adentrou Pernambuco, indo fazer morada entre os miseráveis na zona dos alagados do Recife, exercendo atividade diurna enquanto vendedor de laranja e banana. À noite, clandestinamente, como não poderia deixar de ser, arrebanhava prostitutas e se fez cafetão de uma certa pujança e rápido sucesso financeiro. Roubava, é claro!

Como as pessoas de bem nada sabiam acerca da sua vida à margem dos princípios, foi transformado, urgentemente, num dos líderes da comunidade. Daí a tornar-se político foi um pulinho apenas. Ele dispunha de todas as armas para o exercício dessa arte do cão. Era ordinário, pilantra, trapalhão, salafrário, arrogante, truculento, mandrião, sem alma, estafeta de puta e gritador de leilão. De nada mais precisava. Nunca na história desse País houve profissional mais completo e versejado.

Como a época, o ambiente e o humano pediam, do pescoço pra baixo era tudo canela. Exagerava em altíssimas doses as ofensas de toda ordem contra os adversários que eram logo tornados inimigos. João Pessoa, um homem de bem, foi um dos mártires dessa forma de fazer política na base do arroto e do sopapo. Este foi assassinado por João Dantas, na Confeitaria Glória, no Recife, em 1930.

Acerca das loucuras vomitadas pelo nosso herói caça confusão, devo dizer-vos que, depois das lutas, das querelas, dos bate-bocas, mesmo aos mais pacíficos, sempre sobram alguns arranhões. Até em família, ou no ambiente de trabalho, depois das discussões, resta, inclusive, a rixa do perdedor a lhe corroer as vísceras. Enquanto àquele que dizem ter ganho o debate pouco sobra, além do inimigo arranjado a dormir no aposento contíguo ao seu.

Em verdade vos deixo dito e escrito que, se é para ofender o cidadão, sequer vou lhe pronunciar o nome. Se não tenho nada de bom para colocar na biografia de um qualquer, eu farei de conta que não o conheço e que nunca o vi. A ninguém é dado o direito de falar mal do outro sem ao menos deixar-lhe expressar a sua opinião sobre o tema ou a atitude em análise.

Aí, então, sobressaem os ranços e arrancos da truculência que provocam males irreparáveis à bílis e ao fígado, dentre outros órgãos que, dependendo da duração dos rompantes, podem chegar ao ponto em que o apoplético morre engasgado com a própria baba. Sai pra lá, foba!

Recordo haver lido em um texto budista algo parecido com um aforismo segundo o qual, quando impera a concórdia entre os pássaros, eles destroem a arapuca. Quando entre eles vinga a discórdia, caem enquanto presas fáceis da armadilha.

Não. Eu nunca tolerei os falastrões. Detesto-os. Fujo das suas reuniões como o diabo foge da cruz. Creio piamente que aquele que planta a harmonia impetra a simpatia. Já o que semeia vento colhe tempestade… Coisa mais antiga não há.

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*Romancista, cronista, poeta e palestrante. Autor de ANJOS DO SOL POENTE (romance) e DOIS RAIOS DE SOL E MEIO PALMO DE LUA (crônicas), disponíveis no http://livrosfantasticosescritospormi.com > Membro da Academia Acreana de Letras, Cadeia 27.