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Apiwtxa apresenta dossiê sobre o risco de estrada no Peru, que se aproxima, de forma ilegal, da fronteira com o Brasil

A rodovia corta territórios indígenas e áreas de conservação há menos de 11 km da fronteira com o Brasil, principalmente com a Terra Indígena Kampa do Rio Amaônia, da Aldeia Apiwtxa

(Foto: Associação Apiwtxa)

A Associação Ashaninka do Rio Amônia – Apiwtxa construiu um dossiê para apresentar a ameaça da Estrada Nueva Italia – Puerto Breu, a UC-105, no Peru. A rodovia, que atualmente está sendo reaberta de forma ilegal, corta territórios indígenas e áreas de conservação há menos de 11 km da fronteira com o Brasil, principalmente com a Terra Indígena Kampa do Rio Amaônia, da Aldeia Apiwtxa. A abertura desta estrada ameaça mais de 30 comunidades indígenas do Brasil e Peru, nas regiões do Ucayali, Alto Tamaya e Alto Juruá.

“A Apiwtxa reuniu o conjunto desses documentos e arquivos, pois considera este o pior momento de ataques ao nosso território. Se trata de uma estrada que liga o Rio Ucayali ao Rio Juruá, por dentro de uma floresta em que habitam comunidades indígenas e populações tradicionais. O impacto disso será muito grande, com a migração de grupos ao longo desta rodovia, trazendo para próximo da nossa fronteira e para a cabeceira dos nossos rios, extração de madeira ilegal, tráfico de drogas e outras ações ilícitas”, explica Francisco Piyãko, liderança Ashaninka da Apiwtxa.

O documento abre fazendo a denúncia de invasão ao território vizinho da Aldeia, já iniciada com a chegada de máquinas pesadas e veículos de transportes. “No começo de agosto de 2021, o Comitê de Vigilância da Comunidade de Sawawo (Hito 40) confirmou à Associação Apiwtxa que a frente de abertura da estrada UC-105 (Nueva Italia-Puerto Breu) já se encontra a aproximadamente 11,3 km da fronteira com o Brasil, às cabeceiras do Rio Amônia, ameaçando inclusive a soberania nacional brasileira. Desde o início de agosto de 2021, o Comitê de Sawawo se encontra em expedição no rio Amônia para verificar as ações ilegais das madeireiras na região e identificar o tamanho do impacto, quantidade de máquinas, qual empresa é responsável e quantos trabalhadores há no local”.

O Dossiê faz ainda um histórico da UC-105, mostrando como apenas os interesses econômicos, de grupos políticos e de criminosos forçam a criação desta rodovia e da exploração desenfreada na região. “Tem comunidade que está sofrendo com os impactos que já ocorreram, pelas drogas que invadiram seus territórios, pela prostituição que viveram dentro do seu território, pelas quedas de lideranças que hoje deixaram os seus territórios, porque essas empresas os levaram ou até mesmo os mataram”, explica Benki Piyãko, liderança Ashaninka da Comunidade Apiwtxa.

Essa rodovia, agora aberta de forma ilegal, é porta aberta para o narcotráfico, extração ilegal de madeira e ocupação indevida ao longo de todo o seu trajeto. As cabeceiras dos rios e igarapés serão altamente afetados, levando a consequências perigosas aos moradores do lado brasileiro da Amazônia. Rio Ucayali, Rio Genepanshea, Rio Sheshea, Igarapé Shanuya, Igarapé Noaya, Igarapé Shatanya, Igarapé Alto Tamaya, Rio Amônia, Rio Dorado, Rio Juruá, Rio Arara, Rio Breu, Rio Huacapishtea são alguns dos corpos d’água que podem ser contaminados com o aumento de atividades ilegais.

Parte desses rios e igarapés chegam ao Brasil ao desaguar, em algum momento, no Rio Juruá, que corta grande parte da Amazônia brasileira e abriga Cruzeiro do Sul, a segunda maior cidade do estado do Acre. A ocupação indevida de suas cabeceiras, seguida de grandes atividades ilegais, como mineração ou o tráfico de drogas, pode gerar contaminações de diferentes graus, afetando a fauna que usa as cabeceiras para reprodução, por exemplo.

A rodovia, que atualmente está sendo reaberta de forma ilegal, corta territórios indígenas e áreas de conservação há menos de 11 km da fronteira com o Brasil, principalmente com a Terra Indígena Kampa do Rio Amaônia, da Aldeia Apiwtxa (Foto: Associação Apiwtxa)

Ocupação

A ocupação da UC-105 já está sendo feita, conforme mostram imagens de satélites. Já é possível ver, pelo menos, cerca de cinco pistas ilegais, construídas ao longo da estrada UC-105. Sem controle e fiscalização, esta região pode se tornar uma das maiores em produção da cocaína. Para se ter uma ideia, segundo notícias de imprensa da região do Ucayali, foram identificados pelo menos 12 ha de cultivo de coca nos arredores de Nueva Itália, localizada ao norte de Bolognesi, que fica na rota do trecho para Puerto Breu.

Outras imagens mostram o avanço do desmatamento. A análise das imagens de satélite da Planet Data de 2 de maio e 21 de julho de 2021 revela duas pistas de pouso adjacentes ao trecho UC-105. Essas duas pistas foram estabelecidas em 2018 e 2020. Durante o período de 81 dias entre a obtenção das duas imagens de satélite, foram desmatadas 22 novas áreas de floresta em um raio de 5km mediante às duas pistas de pouso, com um total de 30,4 hectares de área desmatada e uma média de 1,38 hectares cada.

O Dossiê aponta que “os resultados indicam uma possível relação geográfica entre a estrada proposta, as pistas de pouso e o desmatamento durante a primeira parte da estação de poucas chuvas”.

Francisco Piyãko ressalta o que essa ameaça significa para seu povo e os demais da região. “O que ameaça uma a região dessas é essa aproximação de fora para cá, com outros modos de vida, com outros valores, com outras coisas que vai querer sobrepor esse jeito de viver aqui, e esse talvez seja o lugar do mundo que tem uma qualidade que está tão pura, que não tem o mercúrio, que não tem nenhuma contaminação. A água é pura, você pode beber, você pode andar, você pode vir e comer peixe, a caça”, finaliza.

Organizações peruanas, com apoio da Apiwtxa, já estão acionando os órgãos governamentais peruanos. Nesta semana, a Associação de Comunidades Indígenas para o Desenvolvimento Integral de Yurúa Yono Shara Koiai – ACONADIYSH e a Associação ProPurús formalizaram denúncias contra a invasão ao território de Sawawo. “Acreditamos que o governo peruano irá dar uma resposta para esta situação e ajudar que isto seja revertido”, afirma Francisco.

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