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Incentivo à Educação

Concurso de redação inspira crianças moradoras da Cidade do Povo e revela dura realidade da comunidade local

Projeto, proposto pelo deputado Roberto Duarte, foi realizado neste mês de outubro, na Escola Cívico-Militar. Textos mostraram a compreensão das crianças sobre os problemas da comunidade em que vivem e a importância da escola para transformação social

 

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Concurso de produção textual foi realizado durante o mês de outubro, na escola Cívico Militar. A aluna Késia Matos venceu em primeiro lugar na categoria “Carta”.

“Como o Sr. bem sabe, essa é uma comunidade carente e que, infelizmente, sofre com o índice elevado de criminalidade e insegurança”. Este é um trecho da carta que Késia Matos, de 12 anos, escreveu para o governador Gladson Cameli, no concurso de produção textual realizado na Escola Cívico Miliar, no conjunto habitacional Cidade do Povo, em Rio Branco. Assim como Késia, mais de 400 alunos participaram da competição, que mostrou a compreensão das crianças sobre a realidade em que vivem, mas também revelou a motivação que recebem da escola.

O texto de Késia, que mora no local há seis anos, foi o primeiro colocado na categoria “Carta”, junto com Joálison Rocha, de 11 anos, que venceu a categoria “Poema”, e Noemi Damásio, de 13 anos, que ganhou com um artigo de opinião. Com premiação em dinheiro e o tema “A importância da Escola Cívico Militar na Comunidade Cidade do Povo”, os alunos do 6° ao 8° ano redigiram textos dentro da categoria de cada série. O concurso foi uma proposta do deputado estadual Roberto Duarte e a cerimônia de premiação foi realizada na última quinta-feira, 21.

“Às vezes, sinto um pouco de insegurança por morar aqui, mas tem o lado bom, como a escola. Em 2020, quando soube que ia abrir a escola, fiquei muito feliz, porque sempre sonhei em seguir na área, quero ser bombeiro”, declara Késia, que também confessou não esperar ganhar o concurso, por saber que tem “muita gente boa” na escola.

Este foi o mesmo pensamento que Noemi, do oitavo ano, teve antes de saber que venceu em primeiro lugar com seu texto. Divertida e espontânea, ela conta que os desafios surgiram logo no início do concurso, quando ela ainda não sabia como fazer um artigo de opinião. Mas a aluna, que tem ciências, artes e português como matérias preferidas, começou a pesquisar sobre o gênero textual e se inspirou na própria realidade para escrever.

“Para mim, (o texto) não tinha ficado bom, mas, quando os professores ligaram, dizendo que tinha sido uma das selecionadas, aí eu fiquei muito feliz! Esse foi um concurso muito bom, porque incentivou os alunos a pensarem sobre a cidade, a escola e o bairro. E também motivou a gente”, comenta a estudante.

Motivação é mais que importante para Noemi, que sonha em ser médica, e já planejou seu futuro todinho, como ela afirma.  “Um dos meus sonhos é, quando eu estiver no ensino médio, me inscrever para uma bolsa de estudos na Coreia do Sul, porque é um dos meus países preferidos, e gosto muito da educação de lá”, revela.

O pequeno Joálison (a esquerda) venceu o primeiro lugar na categoria “Poema”.

Nos textos, por mais implícito que seja, é possível perceber como os alunos refletem sobre as dificuldades vividas na comunidade e veem a escola como um espaço essencia na vida delas, um lugar de esperança. É o que vemos na última estrofe da poesia de Joálison: “Um exemplo para todos/ eu vejo e penso assim/ a Escola Wilson Barbosa/Nunca desiste de mim”.

Tal sensação de pertencimento e a possibilidade de fuga da realidade em que vivem na comunidade é uma das propostas que o diretor da escola busca cumprir, desde a fundação da instituição, em 2020.  Albernilde Ramos brinca que, agora, o “problema” é maior:

“Pois a gente criou dentro de cada aluno uma perspectiva de uma vida melhor e, quando você começa a plantar sonhos, isso recai nas costas da equipe como um todo. Os meninos esperam muito da escola. Vendo a alegria deles, a perspectiva deles, a gente percebe que nossos alunos não pararam de sonhar, mesmo no período pandêmico” reflete o diretor.

Ampliação do projeto

Ao todo, 495 produções textuais foram inscritas no concurso da escola Cívico Militar.

Com o intuito de incentivar os alunos a treinarem a redação, uma das etapas essenciais para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), Roberto Duarte conta que teve a ideia do concurso ao ser convidado para um evento na Escola Cívico Militar. Em diálogo com os professores, criaram o projeto, que premiou os três primeiros colocados de cada categoria com R$ 150, R$ 100 e R$ 50 cada.

Além dos estudantes, o concurso premiou também os três melhores professores, que foram votados pelos próprios alunos. “Para incentivar os alunos a estudarem mais, incentivar a Educação e a Cultura. E a incentivar os professores a ministrarem melhor as aulas, conversarem mais com os alunos. Queremos promover a Educação e a Cultura no nosso estado”, afirmou Duarte.

Ao todo, foram 495 produções textuais inscritas, das quais foram selecionadas 10 de cada categoria, que passaram pela avaliação de uma banca, que decidiu os vencedores. O diretor da escola afirma que o concurso mobilizou não somente alunos e professores, como os familiares dos estudantes, que estiveram presentes no dia da premiação. Para aumentar ainda mais a emoção e expectativa das crianças, a revelação dos vencedores foi realizada com a leitura de cada texto, sem revelar o nome. Assim, cada aluno vibrou ao reconhecer a própria produção sendo lida.

Chefe do Departamento de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas da Fundação Elias Mansour (Fem) e presidente da Academia Acreana de Letras Juvenil, Jackson Viana, foi um dos integrantes da banca avaliadora e destacou a importância da literatura no processo educacional. Ele viu as redações como uma oportunidade de apresentação de realidades, muitas vezes, ignoradas ou desconhecidas pela maioria.

“Às vezes, a gente de fora não enxerga ou nem imagina que uma criança tem consciência do preconceito que vive, da marginalização em que são colocados, do intenso risco de entrar para a criminalidade. Fiquei bastante tocado, e acho que, sem dúvida, alguma a literatura é mais uma ferramenta para que possamos ouvir essas pessoas, compreender essas pessoas e dar oportunidade a elas”, reflete.

Deputado estadual Roberto Duarte entregando a placa de premiação para Noemi Damásio, do 8° ano.

Com os bons resultados do projeto, outras edições serão realizadas em uma escola na cidade de Cruzeiro do Sul e de Brasiléia, ainda este ano. Mas, para o próximo ano, Roberto Duarte fechou uma parceria com a FEM em que ele vai fornecer uma emenda parlamentar de R$ 50 mil, para realizar o projeto em, pelo menos, 40 escolas da Capital e do interior do estado.

“A literatura precisa, de fato, de muito reforço no Estado, de muito incentivo. E esse incentivo, sem dúvida nenhuma, precisa começar nas escolas. Acho que vai ser fundamental para o ano de 2022, com a retomada das aulas, com a presença dos alunos nas escolas. Talvez, a gente tenha um público ainda maior do que dessa vez”, afirma Jackson Viana.

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Confira abaixo os textos que venceram em primeiro lugar de cada caegoria: