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PELO SUS

‘Foi como uma luz’, declara mãe de criança que passou por cirurgia de reparação de lábio leporino gratuita, no Acre

Programa de Reabilitação e Assistência ao Fissurado da Face (PRAFF) oferece cirurgias, acompanhamento e outros serviços gratuitos, na Fundhacre

Gessiane Matos e o filho Samuel, que chegou nasceu com lábio leporino e o palato fendido. (Foto: Arquivo pessoal)

Mãe de segunda viagem, Gessiane Souza Matos, de Sena Madureira, seguiu, corretamente, todos os procedimentos de pré-natal, durante a gestação do seu segundo filho. Mesmo com respostas positivas de todos os exames, ela teve uma surpresa, quando viu que o pequeno Samuel havia nascido com o lábio leporino e o palato fendido, más-formações desenvolvidas ainda no embrião. Apesar do susto e das preocupações, ela teve uma segunda surpresa, esta positiva, ao poder realizar as duas cirurgias de forma gratuita, sem sair do Acre.

Logo após o nascimento de Samuel, mãe e filho foram transferidos para Rio Branco, onde tiveram acesso, gratuitamente, ao Programa de Reabilitação e Assistência ao Fissurado da Face (PRAFF), na Fundação Hospitalar (Fudhacre). Com mais de 600 pacientes cadastrados (do Acre e estados vizinhos), cerca de 150 cirurgias foram realizadas pelo programa, desde 2017. As principais são a queiloplastia (cirurgia do lábio) e a palatoplastia (cirurgia no palato), ambas realizadas em Samuel.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada 650 crianças no Brasil nasce com a deformação. Também chamadas de fissura labial e fenda palatina, as más-formações possuem diferentes graus de intensidade, e os fatores genéticos estão relacionados a sua causa. O lábio leporino consiste na abertura que começa na lateral do lábio superior. Tal abertura pode se estender por outras partes da face, como o palato. A condição pode gerar vários problemas, como dificuldade ao falar e na alimentação.

Foi o que aconteceu com Samuel. Gessiane conta que eles chegaram a ficar internados, durante noves meses, na Capital. “Não conseguiam alimentar ele, ele estava sem beber água e não pegou o peito, devido ao lábio aberto. Ficou no berçário, onde fizeram vários exames e lá, a médica me falou sobre a cirurgia e me encaminhou para o programa. Para mim, aquilo foi como uma luz, um sonho que estava vivendo”, relata.

E, no final de 2019, Samuel passou pela primeira cirurgia, de reparação do lábio, quando tinha nove meses de idade. Pelas mãos do cirurgião Felipe Queiroga, que também é o coordenador do PRAFF, a operação foi um sucesso, pra alívio de Gessiane. “O lábio dele ficou lindo, não é porque é meu filho, mas ficou lindo! Eu disse ao médico: o senhor tem as mãos abençoadas!”, brinca.

Apesar da comemoração, ela conta que a segunda cirurgia foi a mais esperada, pois a má formação do céu da boca ocasionava mais problemas. “Ele se engasgava de mais, para beber água se engasgava, e dormindo, só com a saliva se engasgava. Ele fez a cirurgia, no final de 2020, e, graças a Deus, também deu tudo certo!”, comenta a mãe.

Samuel antes e depois das duas cirurgias. (Foto: Arquivo pessoal)

Médico há mais de dez anos, membro especialista da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, o cirurgião acreano Felipe Queiroga explica que tais cirurgias podem trazer melhor qualidade de vida para os pacientes, tanto socialmente, quanto intimamente. Uma vez que reparam não apenas a estética do rosto, mas também a função da fala.

“Pelo fato de ocorrerem na face e de se associar com a voz anasalada, essas fissuras causam muito constrangimento social e dificuldade de socialização nesses pacientes, gerando desde histórias tristes, como crianças abandonadas pelos pais, a adultos com severos transtornos psicológicos, como depressão”, destaca Queiroga.

Felipe Queiroga fez residência médica em Cirurgia Geral pelo Hospital Federal de Ipanema e em Cirurgia Plástica pelo Hospital Municipal Barata Ribeiro.

Ele explica ainda que quanto mais cedo realizado o procedimento cirúrgico, menos problemas são acarretados. No caso do lábio leporino, o ideal é operar quando o bebê tiver cerca de seis meses de idade, já a cirurgia do palato deve ser feita aos dois anos de idade.

Hoje, com quase três anos, Samuel recebe acompanhamento semanal de fisioterapia fonoaudiológica, e a mãe comemora a nova fase da vida. “Hoje, ele está muito bem, comendo tudo o que ele não podia comer, bebendo água tranquilo e não se engasga. Dorme tranquilo e está começando a falar. Fiquei um pouco surpresa no início, são ótimos profissionais. Eu sempre disse ao doutor que, enquanto eu viver, não vou deixar de agradecer a eles”, se emociona.

Com mais de 600 pacientes cadastrados (do Acre e estados vizinhos), cerca de 150 cirurgias foram realizadas pelo programa, desde 2017. (Foto: Arquivo pessoal)

Serviços do PRAFF

Desde outubro de 2017, mais de  500 consultas foram realizadas pelo Programa de Reabilitação e Assistência ao Fissurado da Face, dentre elas médicas, odontológicas e otorrinolaringológicos. Além dos casos das cirurgias plásticas reconstrutivas de face, o programa ainda oferece tratamento para crianças com fissuras labiopalatina, de caráter multidisciplinar, acompanhamento odontológico/ortodôntico, fonoaudiológico, otorrinolaringológico e assistência social.

Para ter acesso ao programa, o paciente pode ir diretamente à Fundação Hospitalar do Acre ou pedir encaminhamento em algum posto de Saúde. Há quatro anos à frente das cirurgias, que não pararam durante a pandemia do coronavírus, Felipe Queiroga declara a realização com os resultados.

Felipe Queiroga é responsável pelas cirurgias plásticas do Programa de Reabilitação e Assistência ao Fissurado da Face (PRAFF). (Foto: Arquivo pessoal)

“A sensação é maravilhosa, indescritível. São cirurgias muito complexas. Eu, particularmente, passei anos para aprender. Os pacientes, normalmente, ficam muito gratos, e isso gera um bem estar muito grande.  Hoje posso realizar sonho de participar de um projeto desses, melhorando a qualidade de vida dos pacientes e dando para eles um alento a mais nos dias tão difíceis que são viver com fissuras. E a cirurgia plástica reconstrutiva dá esse alento ao paciente”, declara.

Devido à experiência com cirurgias em crianças, Queiroga explica que também recebe qualquer caso pediátrico que necessite de tratamento plástico reconstrutivo, além da face, como: má formações genitourinárias (hipospádias, epispádias, agenesia), defeitos na face não-fissurados (ptose pálpebral congênita, malformações em orelhas, blefarofimose), em extremidades (brida amniótica em membros superiores e inferiores).

Tratamento de fissuras nos lábios e palato devem começar o mais cedo possível.

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