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cultura acreana

História de Da Costa, artista acreano do samba, ganha registro em livro

O acervo para a pesquisa que deu origem ao livro foi levantado com o material disponibilizado pela família e pela escuta de radialistas da época

Livro é fruto da dissertação de mestrado do artista acreano Écio Rogério da Cunha. (Foto: Divulgação)

A pesquisa sobre o artista acreano do samba, Da Costa, que já foi dissertação de mestrado ganhou forma de livro, pela primeira vez, neste mês de dezembro de 2021. O artista e professor, Écio Rogério da Cunha, publicou seu trabalho com o título “Etnomusicologia de JB Costa: um sambista negro da Amazônia Acreana”. Os exemplares serão distribuídos em escolas e bibliotecas do estado.

Essa forma de preservar em um livro a memória de Da Costa [também conhecido como JB Costa], primeiro acreano a gravar disco de suas próprias composições musicais, foi possível por meio de aprovação de projeto no edital de Cultura Afro-brasileira 005/2020 do Governo do Estado do Acre/ Fundação de Cultura Elias Mansour (FEM), com recursos da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc.

O acervo para a pesquisa foi levantado com o material disponibilizado pela família e pela escuta de radialistas da época. Écio Rogério identificou muitos recortes de jornais deixados por Da Costa com divulgações de shows, participações em festivais de música e lançamentos dos discos do sambista.

O pedreiro-artista

JB Costa nasceu em 19 de setembro de 1930, em Rio Branco (Foto: dacostadoc.blogspot.com)

Jofre Barbosa da Costa, JB Costa ou Da Costa, como ficou mais conhecido, nasceu em 19 de setembro de 1930, em Rio Branco (AC), nas margens do Igarapé Fundo, atualmente bairro Vila Ivonete (área urbana da cidade). O pai, João Barbosa da Costa (maranhense), era marceneiro e músico. A mãe, Lídia Barbosa da Costa (paraense), era lavadeira e tacacazeira.

Ao apresentar seu livro em “Notas do Autor”, Écio Rogério comenta a trajetória de Da Costa com suas particularidades. “Senhoras e senhores, este é o JB Costa, profissão Pedreiro-artista. Na sua maioria os artistas tem uma outra função social que lhe garante o sustento. Muitos são professor-artista, balconista-artista, advogado-artista, etcetera. JB Costa com sua colher de pedreiro casou, criou filhos e gravou fonogramas”, escreveu. O sambista foi o primeiro artista acreano a gravar, em 1973, um disco compacto simples com músicas autorais.

O escrito, João Veras, amigo do autor defende a necessidade de apontar criticamente o racismo enfrentado por Da Costa em sua trajetória de vida e carreira artística. “Não enfrentar a condição de negro numa sociedade racista seria fazer de conta que todo sofrimento – que o racismo causou no sujeito racializado como Da Costa, nunca existiu. Para dizer o contrário, ele disse: no Acre ninguém casa com crioulo. Não gostaram do fato de um negro ter sido o primeiro acreano a gravar um disco. Da Costa viveu fora do lugar do ser. Morto, continua. Este livro grita aos berros! É Da Costa, é Grada, é Fanon, é um povo!”, completa.

Ainda não conhecia o trabalho do Da Costa? Segue abaixo uma de suas músicas:

Memórias do autor

A decisão do autor, Écio Rogério, por pesquisar a vida do sambista acreano tem influência nas recordações da própria infância, os detalhes constam no livro. Da Costa era vizinho, moravam no Cohab da Floresta, em Rio Branco (AC), local onde hoje fica o bairro Mascarenhas de Moraes, era muito bem quisto pela vizinhança. “Um sujeito de boa índole, de gargalhada contagiante e alegria mais contagiante ainda”, descreve Écio Rogério em um dos trechos do livro.

Ainda nas memórias pessoais o livro também registra o episódio em que Écio Rogério descobriu o que era um cantor, ao ver e ouvir Da Costa em um programa de calouros, no bairro Estação Experimental durante uma apresentação em 1978. “Após o ensaio dos calouros, ele subiu ao palco para passar o som e, no momento que iniciou as músicas ‘Saudade do Acre’ e ‘Conselho de amigo’ fui descobrindo o que era um cantor. Era a primeira vez que ouvia um cantor ao vivo e sua sonoridade causou-me uma sensação maravilhosa”, escreveu.

O autor

Écio Rogério da Cunha possui trajetória artística em música e teatro desde 1979. Passou por diversos grupos de teatro e grupos de música em Rio Branco (AC) e Brasília (DF).  Professor do Curso de Licenciatura Plena em Artes Cênicas -Teatro e ABI Teatro, na Universidade Federal do Acre (Ufac), tem licenciatura em Música pela Universidade de Brasília (UnB) e mestrado em Letras, Linguagem e Identidade pela Ufac. Atualmente, integra os grupos artísticos Cia Visse e Versa, O barulho do Acre, Macaco Prego da Macaca e o Maracatu Pé Rachado.

Ficha técnica

Autor/Pesquisador: Écio Rogério da Cunha; Edição e projeto gráfico: Rodolfo Minari; Editora: 3 Serpentes; Produção: Nathânia Oliveira; Gráfica: Nossa Gráfica

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