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Saúde Trans

Homem trans acreano cria rifa e ‘vaquinha’ para realizar terapias de transição

"Estou fazendo isso para poder ter uma existência mais digna” declara o psicólogo Dom Amuruz que pretende realizar a hormonoterapia e a masctectomia

Dom Amuruz, de 30 anos, realiza o sorteio da rifa no dia 18 de dezembro.

Seja por problemas com a família, questões internas ou casos de violência, a população LGBTQIA+ enfrenta problemas frequentemente e quando se trata de pessoas transexuais e travestis, a situação piora. No Brasil, aumentou em 48% o número de assassinatos de pessoas trans entre janeiro e abril de 2020, segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Com o objetivo de melhorar sua qualidade de vida, o psicólogo acreano Dom Lopes Amuruz, homem trans, optou por alguns procedimentos para continuar o processo de transição de sexo e está realizando uma rifa e uma vaquinha para custear os procedimentos.

Aos 30 anos de idade, Dom começou o processo de transição há cerca de cinco meses, logo em que se identificou como homem trans. Ele sofre também de disforia de gênero, o que lhe gera ansiedade e outros sintomas por não se identificar com o sexo biológico o qual nasceu. Por isso, precisa de um acompanhamento multidisciplinar com profissionais da endocrinologia, psicologia, psiquiatria e ginecologia. Dois procedimentos específicos requerem um orçamento maior: a hormonoterapia e a mastectomia.

Dom pretende realizar a hormonoterapia, que é tratamento medicamentoso com hormônio testosterona e bloqueador de progesterona, a qual lhe permitirá minimizar os sofrimentos causados pela incongruência de gênero. Já a masctectomia consiste no cirurgia de retirada dos seios. “Existem alguns incômodos ao estar em um corpo em que você não se sente bem provoca, um deles é a disforia. Os seios me incomodam, por exemplo, até nos abraços. É uma simples coisas que faz bastante diferença na qualidade de vida”, relata.

Em busca de realizar as terapias da melhor forma, Dom também optou por mudar de cidade. Ele afirma que no Acre ainda não existe referências para saúde de pessoas trans. Por isso, ele lançou uma rifa que será sorteada no dia 18 de dezembro. Pelo valor de R$5, os prêmios serão: 1 ensaio fotográfico artístico; 1 limpeza de pele; 1 sessão de ariculoterapia; manicure e pedicure; 1 kit de absorventes de pano; 1 sessão de reiki.

Além da rifa, Dom decidiu abrir também uma arrecadação em uma plataforma de financiamento coletivo em setembro deste ano. Inicialmente, o objetivo é arrecadar R$6 mil e a contribuição pode ser feita NESTE LINK. Para comprar as rifas, entrar em contato pelo Whatsapp (68)9991-9653.

“Mudança não é uma coisa barata, nem feita de uma hora para outra, está sendo bem planejada e esquematizada. Transcionar para mim é um ato de muita responsabilidade consigo e com a própria saúde. Vejo muitas pessoas trans no estado fazendo uso de hormônios, e colocando a vida em risco”, relata.

A mudança para a cidade de Goiânia surgiu pela busca de um lugar com referências médicas na área e a partir de experiências que Dom viveu na pele, no Acre. Há poucos meses, o psicólogo foi a um posto de saúde para retirar um remédio com receita médica. Entretanto, o documento estava com o nome social de Dom, o qual ainda não foi alterado na Carteira de Identidade.  Situação que gerou transtornos para ele:

“A moça (do posto) não quis liberar a medicação, mas na resolução consta que deve-se aceitar com o nome social apenas levando o comprovante da identidade, caso não esteja retificado, e é liberada a medicação. (…)Agora se uma coisa simples, que é acessar uma farmácia foi assim, imagine acessar um atendimento mais aprofundado. E infelizmente aqui não está suprindo o que eu estou precisando. Está faltando muita coisa, estou fazendo isso para poder ter uma existência mais digna”, declara Amuruz.

Transexualidade e o processo de transição

Psicólogo, Dom faz questão de ressaltar a importância do acompanhamento psicológico para pessoas LGBQIA+, ainda mais no caso de pessoas trans. Ele afirma que foi com a ajuda de análise, que realiza com paciente há seis anos, que ele conseguiu se compreender e a ideia da rifa veio da própria psicóloga que o acompanha.

“Acredito que a maioria das pessoas que são da comunidade LGBTQIA+ sofrem de uma repressão em comum de ser quem você é. As pessoas gostam de estar podando os outros, os nossos desejos vão ficando secundários, terciários, até o momento de você não se reconhecer mais, de não se perceber mais. E a busca pela saúde mental vem como um resgate a si mesmo. É um momento semanal que você tem para se ouvir, esse movimento de buscar e, principalmente de desconstruir, é extremamente importante”, afirma.

Dom explica o quanto o processo de transição e o reconhecimento como pessoa trans é muito pessoal e particular. A opção por fazer procedimentos, cirúrgicos, por exemplo, não é um fator necessário para alguém se identificar como trans. “Nem todas as pessoas trans vão querer passar pelo processo mas eu decidi que passaria com uma forma de me sentir bem”, comenta.

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