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Cláudio Porfiro
Cláudio Motta-Porfiro é romancista, cronista, poeta e palestrante. Membro da Academia Acreana de Letras. Email: [email protected]

Cabeças brancas: o despertar de um fenômeno 

            Dando ênfase ao teor filosófico destes escritos, é conveniente observar que o terceiro milênio mostrará para o ser humano coisas imensuravelmente mais formidáveis que as que temos visto até agora. É claro. Temos estudado muito e nos desenvolveremos cada vez mais, como sempre o fizemos. Só que, agora, já dispomos de uma configuração muito mais avançada, quando nos referimos às ultramodernas tecnologias tão bem referenciadas na modernidade líquida do filósofo Bauman. O mundo progredirá cada vez mais velozmente e sempre, ou quase sempre, na direção das nossas melhorias de vida. Cabe-nos apreciar e colocar tudo isso ao nosso inteiro dispor.

            Trocando em miúdos.

            Temos observado que os aposentados de hoje estão acordando para o tamanho da força que têm. De repente, eles estão se dando conta de que os destinos deste País deve passar, também, pelo seu poder de veto e escolha, posto que o seu número aumenta sempre e cada vez mais, tendo em vista algumas nuances próprias desta época.

            Por isto, vimos conclamar os aposentados do Brasil inteiro e, ainda, aqueles que ainda não são aposentados, mas um dia o serão. Esta é a ordem natural do processo. Urge levantarmos as nossas vozes contra as muitas injustiças que são feitas no período pós-aposentadoria que, hoje, pode durar vinte, trinta ou até mais anos.

            Já não se morre tão facilmente aos sessenta ou setenta anos. Os novos hábitos das pessoas na modernidade têm aumentado a média de idade e a expectativa de vida. Hoje em dia, com o advento do nutricionismo, a qualidade da alimentação tem melhorado sensivelmente. Frutas, verduras e legumes passaram a ser comuns na dieta de muitos homens e mulheres. As atividades físicas, para tantos, já são feitas quatro ou cinco vezes por semana, em academias, ou ao ar livre, em caminhadas, corridinhas, alongamentos. A ciência de uma forma bastante ampla evoluiu e com elas surgiram as vacinas e a sua grande facilidade em livrar a humanidade de muitas doenças, como temos visto por último, quando os números da pandemia decresceram de forma muitíssimo expressiva. A grande eficácia dos complexos vitamínicos, dentre muitos outros medicamentos, melhora significativamente a qualidade de vida. A prática das meditações contribui para a diminuição do estresse provocado pelos revezes da vida. Em síntese, tudo tem fluído de forma a que uma boa parcela dos aposentados alcança a oitava década ainda bastante saudáveis, em que pese as possibilidades da idade.

            Daí porque todos passaram a perceber o óbvio: o menor aprendiz de hoje será o aposentado de amanhã, agora, quase com toda a certeza porque, como está anotado acima, as possibilidades da vida moderna assim o indicam. A prática de hábitos saudáveis fará com que a geração que hoje tem vinte anos ultrapasse com alguma facilidade os cem anos de vida. A ciência evolui e todos evoluem juntos, apesar da ansiedade desta época, tão bem tratada pelo filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, no livro A sociedade do cansaço, onde muitas saídas são apontadas para os dilemas do mundo moderno.

            É conveniente deixar claro que a falta das boas leituras levou os habitantes de boa parte do terceiro mundo a um emaranhado de conceitos que só dificultam o entendimento de algumas realidades. Infelizmente, há uma espécie de intelectuais – pagos pelos poderosos – cuja finalidade maior é distorcer os fatos de forma a levar as pessoas ao desentendimento acerca da realidade.

            Sem nenhuma necessidade de se alongar nesse sentido, todos nós devemos observar que nenhum líder faz favores aos aposentados. O dinheiro que se ganha na velhice é exatamente o que foi pago para a previdência durante os anos em que a atividade foi exercida. Não se deve nenhum favor a ninguém, porque o que se ganha hoje é o que a previdência poupou para ser gasto nos tempos em que a idade avançar.

            O próprio significado da palavra previdência é desconhecido de uma superior maioria de políticos sem formação, sem responsabilidade e sem caráter, que infestam as nossas relações a enganar os incautos. Assim como milhares de outros conceitos também lhes são desconhecidos, justamente, porque não estudaram para trabalhar em benefício do povo, mas tão somente para iludir as pessoas e sempre em benefício próprio.

            Os aposentados do Brasil – notadamente os mais humildes, aqueles que sofrem deveras com os preços dos medicamentos e dos netos – devem entender que todos os direitos são inalienáveis. Se o servidor que está em atividade tem direito aos benefícios, o aposentado tem muito mais, porque passou, já, trinta ou mais anos, previdentemente, pagando caro para quando a idade avançasse. Direitos adquiridos ao longo de tantos anos não podem ser esquecidos simplesmente porque um político assim o quer. Por isso, convém dar ênfase a um fator importantíssimo: nenhuma injustiça pode ser cometida. Por isto convém a luta sem trégua a partir de todos os campos de batalha que podem se verificar na justiça, mas também podem ocorrer na consciência de que somos fortes e, de agora em diante, o futuro político deste Estado e desta Nação pode e deve passar pela aprovação dos aposentados que já somam milhões e se multiplicam a cada dia porque assim quer a modernidade.

            Sem querer partidarizar, um grupo político forte poderia ser formado, agora, preferencialmente, tendo à frente pessoas com formação acadêmica suficiente para acolher as melhores ideias e apontar os melhores rumos sem cometer injustiças contra quem quer que seja.

            Não se pode dizer que se trata de jargão político, porque é realidade: o que mais faz falta ao brasileiro de hoje em dia é a consciência de classe e a interpretação de textos. No Brasil, muitos são aqueles que discutem preferencialmente sobre aquilo que não sabem, porque o hábito das boas leituras lhes foi usurpado desde a mais tenra infância. Há uma outra parcela que não se reconhece enquanto pobre, ou se acha superior àquele servidor mais simples que ganha um pouco menos. É preciso que nos reconheçamos enquanto iguais perante as leis. Estamos todos no mesmo barco e os patrões, na verdade, querem que muitos desapareçam e, assim, estarão desaparecendo das suas folhas de pagamento e sendo substituídos pela modernidade da rede mundial de computadores que tem deixado um número cada vez maior de desempregados.

            É hora, pois, de conclamar a todos os aposentados deste Estado e desta Nação, sejam eles federais, estaduais, municipais e, inclusive, os futuros aposentados, uma vez que todos estão na mesma situação de abandono e sempre sujeitos às intempéries da natureza e à improbidade dos patrões.

            Convém a união. Esta marcha não pode ser de grupos em separado. Se nós nos solidarizarmos, seremos capazes de mover o mundo e de aplacar a sanha destrutiva dos líderes que nos querem fazer desaparecer pela inanição e pelos arrochos salariais.

            Juntos seremos muito mais fortes.

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*Romancista, cronista, poeta e palestrante. Autor de ANJOS DO SOL POENTE (romance) e DOIS RAIOS DE SOL E MEIO PALMO DE LUA (crônicas), disponíveis pelo 68 99224 7231 (WhatsApp). Membro da Academia Acreana de Letras, Cadeia 27. Aposentado da SEE e da Ufac.