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Marcela Mastrangelo
Marcela Mastrangelo é socióloga, bacharel em Direito, coach e terapeuta sistêmica e estudante de Psicologia
OPINIÃO POR MARCELA MASTRANGELO

Quando o julgamento é uma confissão (ou autopunição?!)

"Minha tese é que não aprendemos a nos acolher e a ninar nossas dores, compreendê-las, conhecê-las. E essa autopunição nos condiciona a julgar, a sentenciar e a penitenciar também os outros".

Olá, devanetes queridas! E aí, quem está afim de devanear? De se colocar numa posição de muita humildade e reconhecer facetas mais vulneráveis e horrendas de si mesmo?!

Esses dias, em minhas costumeiras caminhadas, tive um lampejo de verdade no meu coração, a partir de algumas notícias veiculadas, ultimamente. Comecei a avaliar a frase de Jesus: “Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela” (João 8:7). O que, por acaso (ou não), era a Palavra do dia, na Igreja Católica. E, como diz uma amiga: “não há acaso aos olhos de Deus”, fui pensando sobre essas atitudes que todos temos de julgar, dar o veredicto e penitenciar as pessoas.



Sim, caros leitores, fazemos numa fração de segundos e saímos justificando nossos atos preconceituosos, sejam eles de qualquer natureza ou proporção. Alguns irão dizer que se trata da natureza humana; outros ainda, que somos sujeitos “em evolução”; e outros tantos…Ah, quer saber, nem irão entender ou parar o seu precioso tempo para pensar sobre isso.

Pois bem, ensaio essas breves palavras me questionando sobre o quanto somos algozes de nós mesmos e, na proporção equivalente, também do outro. O quanto sentamos no “trono da onipotência” e começamos a classificar as pessoas de tal maneira que todas se encaixam em um rótulo, com um defeito, uma especificidade que não as tornam “benditas” entre a gente. Que gente? O outro e nós mesmos.

Venho refletindo e ando bem temerosa do quanto julgamos o outro, do atual nível de arbitramento da sociedade em que vivemos. E me observando e olhando a minha volta, digo sem hesitar: a proporção com que julgamos o outro é feita com a mesma régua dos nossos próprios pareceres, da nossa “régua” com a gente mesmo. E vou além: do tamanho, talvez, das nossas dores existenciais.

Esses dias, lendo um livro de Psicologia Budista, deparei-me com uma frase que me tocou profundamente: “A mente humana deve ser mais temida do que cobras venenosas e assassinos perigosos e, por isso, que a mente humana precisa ser conhecida”. Neste sentido, fico pensando na tragédia a que estamos nos submetendo e mais, a ruína de nosso mundo e das nossas relações.

Observemos ao nosso redor (e/ou, por vezes, dentro nós mesmos): sempre há aquele “ser de luz”, a que tudo o incomoda muito; sempre tem aquele para quem ninguém presta; ou aquela personalidade que você, como um “grande profissional da mente”, classifica e cataloga de forma horrenda; ou aquele sujeito que tem preferências que não dizem respeito ao nosso critério de “normalidade”…

Diante disso, provoco a nossa reflexão individual: quais são as minhas amarras? Por que o outro me incomoda tanto? O que me causa ojeriza, a ponto de não conseguir conviver? Por que? Como? Em razão de quê?

Trouxe como conselho coletivo a citação de Jesus, que cala na alma pela profundidade simples das palavras, proferidas no momento da cena vacilante que alguns faziam em detrimento de uma mulher “pecadora”.

O protagonismo de questionamentos que trago hoje não é em relação ao “pecado” daquela mulher, mas, sim, em relação às dores e, na verdade, aos autojulgamentos que esses homens estavam sofrendo por si mesmos. As amarras que eles e suas dores da subjetividade causavam, a ponto de, sem nenhum pudor, transferirem sua raiva cruel para apedrejarem aquela mulher. Falo da mente humana, capaz de cometer dores inestimáveis para outrem.

Em nome de que?

Nas minhas especulações, não posso desconsiderar o movimento do contexto histórico-cultural, social e político no qual aqueles homens estavam inseridos. E, não diferente, a sociedade e suas relações, nas quais nós também estamos inseridos. Porém, a crueldade que desferimos, ainda nos dias atuais, a maldade com a qual ainda convivemos, e a maledicência com a qual todos nós nos corrompemos demonstra algo mais profundo, que precisa ser avaliado. E a minha tese, nesse presente texto, é que não aprendemos a nos acolher e a “ninar” nossas dores, compreendê-las, conhecê-las. E, por conseguinte, essa autopunição nos condiciona a julgar, a sentenciar e a penitenciar também os outros.

Talvez…

Registra-se, leia-se, cumpra-se o auto-acolhimento.

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