Lembro da velha anedota, se não me falha a memória protagonizada por Bernard Shaw. Ele estava em polêmica com um aristocrata metido a beletrista. Tentando encerrar a discussão, seu oponente falou:
– Eu escrevo pela honra, mas você escreve pelo dinheiro!
E Shaw retrucou:
– É verdade. Cada uma busca o que não tem.
Vivemos em uma sociedade que estigmatiza fortemente o trabalho manual. Refiro-me aqui, é claro, àquelas atividades que são consideradas pouco qualificadas; pianistas ou cirurgiões também trabalham com as mãos, mas não entram nessa categoria.
(O historiador da arte Henri Focillon tem um texto luminoso intitulado “Éloge de la main”, elogio da mão, em que enfatiza o fato de que a beleza produzida por artistas e artesãos nasce do gesto da mão.)
E também é claro que mesmo o peão na fábrica fordista usa seu intelecto no trabalho, por mais que a linha de montagem tente transformá-lo em um robô.
Uma mesma atividade pode ser catalogada de um jeito ou de outro, dependendo do status. Uma mera cozinheira, por mais criativa que seja, será vista como trabalhadora manual, ao passo que quem se denomina “chef” de um restaurante é visto como um artista, ainda que não vá além de repetir manjadas receitas de Paul Bocuse.
Em suma, acho que dá pra entender meu ponto – a linha divisória entre trabalho manual intelectual é produzida socialmente e tem a ver mais com os circuitos do reconhecimento dado às diferentes ocupações do que às suas características intrínsecas.
Essa divisão desfavorece os trabalhadores manuais, que têm menos prestígio social e não alcançam as funções melhor remuneradas.
Mas tem também um efeito especial numa parcela dos trabalhadores intelectuais – sobretudo aqueles que estão mais próximos da definição corrente de “intelectual”.
É que o trabalho intelectual é tão elevado, tão puro, que não pode ser conspurcado por questões terrestres como pagamento.