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Descoberta estrela distante que explodiu não uma, mas duas vezes

Evidências apontam para um fenômeno cósmico inédito, no qual uma supernova pode ter dado origem a uma rara kilonova, desafiando modelos clássicos de explosões estelares.

A Gazeta do Acre por A Gazeta do Acre
04/01/2026 - 10:30
Esta ilustração artística mostra um evento hipotético conhecido como superquilonova. Uma estrela massiva explode em uma supernova (à esquerda), gerando elementos como carbono e ferro. Em seguida, duas estrelas de nêutrons nascem (ao centro), sendo que pelo menos uma delas acredita-se ser menos massiva que o nosso Sol. As estrelas de nêutrons espiralam em direção uma à outra, enviando ondas gravitacionais que se propagam pelo cosmos, antes de se fundirem em uma dramática quilonova (à direita). As quilonovas semeiam o universo com os elementos mais pesados, como ouro e platina, que brilham com luz vermelha — Foto: Caltech/K. Miller e R. Hurt (IPAC)

Esta ilustração artística mostra um evento hipotético conhecido como superquilonova. Uma estrela massiva explode em uma supernova (à esquerda), gerando elementos como carbono e ferro. Em seguida, duas estrelas de nêutrons nascem (ao centro), sendo que pelo menos uma delas acredita-se ser menos massiva que o nosso Sol. As estrelas de nêutrons espiralam em direção uma à outra, enviando ondas gravitacionais que se propagam pelo cosmos, antes de se fundirem em uma dramática quilonova (à direita). As quilonovas semeiam o universo com os elementos mais pesados, como ouro e platina, que brilham com luz vermelha — Foto: Caltech/K. Miller e R. Hurt (IPAC)

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Quando estrelas muito massivas chegam ao fim de suas vidas, elas costumam explodir e formar supernovas, em um processo que espalha pelo Universo elementos como carbono e ferro. Em situações mais extremas, os restos ultradensos dessas estrelas podem colidir entre si, produzindo uma kilonova, uma explosão capaz de forjar elementos ainda mais pesados, como ouro e urânio.

Até hoje, apenas um evento desse tipo havia sido confirmado de forma inequívoca: a kilonova GW170817, observada em 2017 por meio de ondas gravitacionais e radiação luminosa detectadas por telescópios em todo o mundo. Em 18 de agosto de 2025, porém, detectores do LIGO, nos Estados Unidos, e do Virgo, na Itália, registraram um novo sinal de ondas gravitacionais dessa natureza.

A análise inicial sugeria a fusão de dois objetos compactos, sendo que pelo menos um deles teria massa inferior à de uma estrela de nêutrons típica. Minutos depois, um alerta foi enviado à comunidade astronômica, apontando uma região aproximada do céu de onde o sinal teria se originado. Horas mais tarde, o Zwicky Transient Facility (ZTF), no Observatório Palomar, identificou um objeto vermelho que desaparecia rapidamente a cerca de 1,3 bilhão de anos-luz da Terra.

O fenômeno foi nomeado de AT2025ulz. Ele parecia vir da mesma região associada às ondas gravitacionais, o que imediatamente fez com que os especialistas levantassem a hipótese de se tratar de uma kilonova inédita. Detalhes do achado foram descritos em um artigo publicado no dia 15 de dezembro na revista científica Astrophysical Journal Letters.

Mudanças no astro
Nos primeiros dias, AT2025ulz apresentou exatamente o comportamento esperado de uma kilonova, com brilho intenso, rápida dissipação e predominância de luz vermelha, associada à produção de elementos pesados que bloqueiam a radiação azul. “Por três dias, a erupção parecia exatamente com a primeira kilonova de 2017”, afirma a astrônoma Mansi Kasliwal, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), autora principal do estudo, em comunicado.

Mas o enigma começou quando, dias depois, o objeto voltou a brilhar, desta vez em tons azulados, exibindo hidrogênio em seu espectro — sinais característicos de uma supernova de colapso do núcleo, não de uma kilonova. Esse comportamento híbrido levou parte dos astrônomos a concluir que AT2025ulz poderia ser apenas uma supernova comum, sem relação direta com o sinal de ondas gravitacionais, já que supernovas distantes geralmente não produzem ondulações no espaço-tempo detectáveis pelo LIGO e pelo Virgo.

Kasliwal e sua equipe, no entanto, notaram que o evento também não se encaixava no padrão típico das supernovas conhecidas. Além disso, os dados gravitacionais indicavam que pelo menos um dos objetos envolvidos na fusão tinha massa inferior à do Sol. Isso não tinha precedentes observacionais, mas já era previsto por modelos teóricos específicos.

Hipótese da “superkilonova”
De acordo com esses modelos, uma estrela massiva em rotação extremamente rápida pode, ao explodir, se fragmentar ou se dividir em duas pequenas estrelas de nêutrons subsolares. Tais estrelas “gêmeas” recém-formadas poderiam então espiralar uma em direção à outra e colidir em questão de horas ou dias, produzindo uma kilonova.

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Essa nuvem de detritos da supernova inicial, por sua vez, obscureceria parcialmente essa segunda explosão, misturando os sinais observados. Nesse cenário, AT2025ulz seria o primeiro exemplo observado de uma “superkilonova”, uma espécie de kilonova desencadeada por uma supernova. Veja animação produzida para ilustrar o fenômeno:

“A única maneira que os teóricos encontraram para o nascimento de estrelas de nêutrons subsolares é durante o colapso de uma estrela que gira muito rapidamente”, sugere o astrofísico Brian Metzger, da Universidade de Columbia, coautor do estudo. Apesar do caráter tentador da hipótese, os pesquisadores ressaltam que ainda não há evidências suficientes para uma conclusão definitiva.

Só seria possível confirmar a natureza do astro a partir da detecção de novos eventos semelhantes. E isso só poderá se tornar possível com observatórios mais avançados, como o Vera Rubin, o telescópio espacial Nancy Roman e futuras gerações de detectores de ondas gravitacionais.

Por ora, AT2025ulz permanece como um dos eventos mais intrigantes já observados. Como resume Kasliwal, o episódio é um lembrete de que o Universo ainda guarda surpresas fundamentais: “A natureza é muito criativa. Precisamos manter os olhos bem abertos para entender o que esses sinais estão nos dizendo”.

Por Revista Galileu

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