O consumo elevado de conservantes alimentares, muito presentes em produtos industrializados, foi associado a um risco maior de desenvolver diabetes tipo 2. A conclusão vem de um amplo estudo francês que acompanhou hábitos alimentares e dados de saúde de aproximadamente 100 mil adultos ao longo de mais de uma década.
Os resultados foram publicados nesta quarta-feira (7/1) na revista Nature Communications e fazem parte de uma investigação conduzida por pesquisadores de institutos de saúde e alimentação da França ligados à Universidade Sorbonne Paris Nord e à Universidade Paris Cité.
Diabetes tipo 2
- A diabetes tipo 2 é uma doença crônica marcada pela resistência à insulina e pelo aumento dos níveis de glicose no sangue.
- Mais comum em adultos, a condição está frequentemente relacionada à obesidade e ao envelhecimento.
- Entre os principais sintomas estão sede excessiva, urina frequente, fadiga, visão embaçada, feridas de cicatrização lenta, fome constante e perda de peso sem causa aparente.
- O tratamento envolve medicamentos para controlar a glicemia e, em alguns casos, aplicação de insulina.
- Mudanças no estilo de vida, como perda de peso, alimentação equilibrada e prática regular de exercícios, são essenciais para o controle da doença.
O que são os conservantes avaliados
Os conservantes fazem parte da família dos aditivos alimentares e são usados para prolongar a durabilidade de alimentos e bebidas. Em 2024, mais de 700 mil produtos cadastrados no banco Open Food Facts continham ao menos um conservante em sua composição.
No estudo, essas substâncias foram organizadas em dois grandes grupos. O primeiro reúne os conservantes não antioxidantes, que servem para frear o crescimento de microrganismos e retardar reações que fazem os alimentos se deteriorarem.
O segundo inclui os aditivos antioxidantes, que limitam a oxidação e ajudam a preservar características como cor, sabor e textura. Nas embalagens, esses compostos costumam aparecer identificados por códigos europeus que vão de E200 a E299 e de E300 a E399.
Embora experimentos em laboratório já indiquem que alguns desses aditivos podem afetar células, DNA e processos metabólicos, ainda havia poucas evidências populacionais sobre sua relação direta com a diabetes tipo 2.
Como o estudo foi conduzido
Para investigar a possível ligação, a equipe analisou dados de 108.723 adultos participantes do estudo NutriNet-Santé. Entre 2009 e 2023, os voluntários informaram regularmente seu consumo alimentar, incluindo marcas e tipos de produtos industrializados, além de dados sobre saúde, estilo de vida e histórico médico.
Essas informações foram cruzadas com diferentes bases de dados e permitiram estimar a exposição individual a 58 conservantes identificados na dieta dos participantes. Desses, 17 compostos consumidos por pelo menos 10% da amostra foram avaliados de forma isolada.
As análises levaram em conta fatores como idade, sexo, nível socioeconômico, prática de atividade física, consumo de álcool e tabaco, além da qualidade geral da alimentação. Ao longo do acompanhamento, foram registrados 1.131 novos casos de diabetes tipo 2.
Os resultados mostraram que pessoas com maior consumo total de conservantes apresentaram aumento de 47% na incidência da doença em comparação com aquelas com ingestão mais baixa.
Quando analisados separadamente, os conservantes não antioxidantes estiveram associados ao aumento de 49% no risco, enquanto os antioxidantes foram ligados à elevação de 40%.
Entre os compostos específicos, 12 apresentaram associação positiva com a diabetes tipo 2, incluindo aditivos amplamente usados como nitrito de sódio, sorbato de potássio, propionato de cálcio, ácido cítrico e ácido fosfórico.
“Este é o primeiro estudo no mundo a avaliar a relação entre conservantes alimentares e a incidência de diabetes tipo 2”, afirma a coordenadora do trabalho, Mathilde Touvier, em comunicado. Mathilde é diretora de pesquisa do Institut National de la Santé et de la Recherche Médicale (Inserm), principal instituição pública francesa de pesquisa biomédica e em saúde.
Segundo ela, embora os resultados ainda precisem ser confirmados por outras pesquisas, eles são coerentes com achados experimentais prévios.
Impacto para consumidores e políticas públicas
Para os autores, os dados reforçam a importância de revisar normas que regulam o uso de aditivos pela indústria alimentícia.
“Esses novos resultados se somam a outras evidências que apontam para a necessidade de uma reavaliação das regras atuais, com foco maior na proteção do consumidor”, diz a pesquisadora Anaïs Hasenböhler, que participou do estudo.
Touvier também destaca que os achados dão respaldo científico a recomendações já presentes em políticas de saúde pública.
“O trabalho reforça a orientação para priorizar alimentos frescos e minimamente processados e limitar, sempre que possível, a ingestão de aditivos considerados desnecessários”, afirma.
Os autores ressaltam que o estudo é observacional e não estabelece uma relação direta de causa e efeito. Ainda assim, o tamanho da amostra, o longo período de acompanhamento e o detalhamento das informações alimentares colocam a pesquisa entre as mais robustas já realizadas sobre o tema.
Por: Metrópoles








