A vida tem esse costume maluco de virar. Se em uma hora, estamos em uma situação difícil; noutra, de algum modo surpreendente, podemos usufruir de coisas que jamais imaginamos. Por exemplo: imagine que você é um motorista de aplicativo, usando o carro emprestado do irmão. Então, você vê um amigo se tornar barbeiro e alugar um ponto comercial. Você se interessa: nota que despertou uma vontade de também fazer um curso para se especializar na área. E assim, a sua vida muda.
Uma história comum, que poderia ser de qualquer pessoa, mas é a história de Bruno Silva, de 30 anos. Atualmente, ele vive na cidade portuguesa de Leiria, localizada na província da Beira Litoral. Ele assumiu a profissão e hoje, é responsável pelo visual de jogadores de futebol, inclusive, de Bryan Róchez, um futebolista profissional hondurenho que atua como atacante no Leixões, clube de Portugal. Foi Bryan, aliás, quem “descobriu” os talentos do acreano.
O início e a especialização
Em 2018, Bruno começou a buscar cursos e conversar com barbeiros do Estado, mas diz não ter tido muito apoio. “Muitos nem me deram atenção. Foi quando conheci o Caruta’s [barberia] e nos tornamos amigos. Ele me levou para participar de ações sociais, o que aumentou ainda mais meu interesse pela área”, enfatizou, acrescentando que questões financeiras se tornaram um empecilho grande. “Sempre que tentava fazer um curso, algo dava errado ou o valor era inacessível para mim no momento”.
Foi quando teve a ideia de se especializar em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. “Decidi que, se fosse pagar por um curso, seria com alguém que fosse minha referência. Para realizar esse sonho, vendi minha moto para comprar a passagem e me manter; lá, um amigo me ajudou muito, conseguindo um emprego para mim como porteiro. Trabalhando na portaria, consegui pagar e concluir meu curso de barbeiro”, relembrou.
Após nove meses na capital gaúcha, Silva voltou apra o Acre e teve a oportunidade de trabalhar em mais uma barbearia. “Logo depois, mudei-me para Curitiba, no Paraná, onde já tinha amigos e muitos conterrâneos acreanos”.

Quando as coisas começam a decolar
Em Curitiba, segundo Bruno, as coisas realmente decolaram. “Comecei a atender muitas pessoas e fiz grandes amizades. Tornei-me sócio de um amigo e abrimos uma barbearia, mas infelizmente o negócio quebrou durante a pandemia da Covid-19, em 2020, pois tudo teve que fechar”. Após o fechamento da loja, um concorrente – que depois se tornou um grande amigo! – fez uma proposta de trabalho. “Como eu já tinha uma clientela fiel, aceitei o desafio. Na loja dele, conseguimos um excelente resultado; ele me ajudou a me estruturar e foi em Curitiba que aconteceu a minha verdadeira “virada de chave” profissional”, disse.
A capital paraense foi o palco da primeiras oportunidades na vida de Bruno, que enfatizou à reportagem da Gazeta do Acre que sempre buscou mais, nunca – como mesmo explica – ficou parado. “Eu queria ser diferente, sempre tive isso, de querer sempre mais”. E, daí, realizou mais um sonho: ir para Portugal.
Chegada em terras lusitanas
Antes de ir, no entanto, conheceu a mãe de sua filha. “A gente começou a namorar, e daí aconteceu que eu virei pai. Foi quando eu decidi, realmente, vir para Portugal”. A então companheira foi ainda gestante para a Europa. “A gente mergulhou nessa loucura. Viemos como turistas e, graças a Deus, deu certo. Minha filha nasceu aqui e, depois que vim para morar, consegui um trabalho após seis meses, como barbeiro em um shopping. Foi quando comecei a conhecer várias pessoas, pois eu também trabalho como trancista”.
E foi como trancista que o acreano conheceu o jogador Bryan. “Foi aí que começou a mudar tudo, tudo mesmo”.
Com essas oportunidades, a carreira do profissional deu uma virada decisiva. A partir do atendimento a Bryan, que hoje é um grande amigo de Bruno, vieram as primeiras indicações e, com elas, a consolidação de um público específico: jogadores de futebol e pessoas ligadas ao meio esportivo. “Comecei a atender um público que gosta de estar sempre bem apresentado, que vai aparecer na TV”, relata. O reconhecimento foi imediato e o nome passou a circular entre atletas que atuam ou passam pela cidade.

O crescimento permitiu um passo ainda maior: a saída da empresa onde trabalhava e a abertura do próprio estúdio.
Atualmente, além de atender em seu espaço, ele é frequentemente chamado por jogadores que chegam à cidade para partidas oficiais, realizando atendimentos personalizados em hotéis. Conhecido no meio boleiro local, ele resume a trajetória com gratidão: fruto de trabalho, relacionamento e oportunidade.
Essa é a história de Bruno. Mas poderia ser a de qualquer um. Afinal, quem nunca pensou em mudar, não é mesmo?