Quase três décadas após um dos episódios mais sombrios da história do Acre, a família de Agilson Firmino dos Santos, o “Baiano”, e de seu filho Wilder Firmino, de apenas 13 anos, volta a clamar por justiça. Em uma carta aberta direcionada à sociedade e às autoridades, Emanuela Firmino, filha e irmã das vítimas, reagiu à recente ação do Ministério Público do Acre (MPAC) que cobra a responsabilização civil do Estado pelas mortes ocorridas em 1996.
Para Emanuela, a notícia da ação civil pública traz é uma surpresa. Ela contesta a ideia de que o Acre “virou a página” após o julgamento dos envolvidos em 2009. “Para nossa família, essa página jamais foi virada. O sofrimento permanece vivo e minha mãe envelhece carregando graves problemas físicos e psicológicos, necessitando de cuidados especiais”, desabafou na carta.
Crime da Motosserra
Os crimes, que ficaram conhecidos nacionalmente como o “Crime da Motosserra”, foram atribuídos ao grupo liderado pelo ex-coronel da Polícia Militar e ex-deputado Hildebrando Pascoal, apontado como chefe de uma organização criminosa responsável por execuções, torturas e desaparecimentos forçados no Acre durante a década de 1990.
Segundo as investigações, Agilson foi torturado e morto com extrema crueldade, enquanto seu filho, Wilder, foi sequestrado e executado com tiros na cabeça. “Fomos obrigados a deixar o Acre apenas com a roupa do corpo, sem sequer o direito de nos despedirmos deles. Nem mesmo um enterro digno lhes foi concedido”, diz a filha em sua carta.
Emanuela relata que a juventude dela e de seu irmão foi “arrancada de forma brutal”. “Esperamos que o mesmo Estado, que foi conivente com a morte de nossos familiares e que tantas vezes nos virou as costas, finalmente nos indenize. A vida deles não voltará mais, mas minha mãe precisa envelhecer com dignidade”, escreveu.
Ação do Ministério Público
A carta é uma resposta direta à ação assinada pelo promotor de Justiça Thalles Ferreira Costa. O MPAC sustenta que o Estado do Acre falhou no dever de proteger e investigar, permitindo que agentes públicos utilizassem a estrutura estatal para promover execuções sumárias.
Entre os pedidos do Ministério Público à Justiça, estão:
-
Indenizações: R$ 1 milhão por dano moral familiar e R$ 1 milhão por dano moral coletivo.
-
Pensão Vitalícia: Pagamento de um salário mínimo mensal aos familiares, com efeitos retroativos a 1996.
-
Reparação Simbólica: Realização de um ato público de pedido de desculpas e a retificação das certidões de óbito das vítimas.
O silêncio e a fé
Ao receber a notícia sobre a ação do MPAC, a viúva de “Baiano”, que hoje vive com a saúde debilitada, teve uma reação que resume os anos de espera: olhou para o céu e disse que “não foi por falta de oração”.
Até o momento, o governo do Estado informou que ainda não foi notificado oficialmente sobre a ação civil pública. Para a família Firmino, a indenização financeira não repara a perda, mas representa o reconhecimento da omissão estatal e a única forma de garantir um fim de vida digno para quem sobreviveu ao horror daquela década.
Confira a carta na íntegra
Carta Aberta
À sociedade acreana, às autoridades e a todos que ainda acreditam na justiça,
“Fui surpreendida com a recente notícia, mesmo após termos perdido a esperança de receber algum tipo de indenização do Estado. Recordo que, em 2009, durante o julgamento, foi dito que o Acre estava ‘virando uma página’. No entanto, para nossa família, quase trinta anos após o assassinato brutal de meu pai e de meu irmão, essa página jamais foi virada. O sofrimento permanece vivo, da mesma forma, e minha mãe envelhece carregando graves problemas físicos e psicológicos, necessitando de cuidados especiais.
Esperamos que o mesmo Estado, que foi conivente com a morte de nossos familiares e que tantas vezes nos virou as costas, finalmente nos indenize. A vida deles não voltará mais, e toda dor que atravessamos nesses longos e sofridos anos jamais será reparada. Mas minha mãe precisa envelhecer com dignidade, recebendo o mínimo de cuidados que lhe são devidos.
Meu irmão e eu tivemos nossa juventude arrancada de forma brutal. De um dia para o outro, perdemos tudo. Fomos obrigados a deixar o Acre apenas com a roupa do corpo, sem sequer o direito de nos despedirmos deles. Nem mesmo um enterro digno lhes foi concedido. Minha mãe precisou ser muito forte, e hoje, com um olhar triste e distante, ao receber essa notícia, sua única reação foi olhar para o céu e dizer: “não foi por falta de oração’.
Contamos, primeiramente, com Deus, e depois com as autoridades do Acre, para que indenizem nossa família. Só assim será possível, de fato, virar esta página sombria da nossa história.”
Atenciosamente,
Emanuela Firmino








