Em meio a histórias de deslocamento forçado, fome e busca por dignidade, a Casa de Apoio aos Venezuelanos, no bairro Bosque, tornou-se um dos principais pontos de acolhimento humanitário de Rio Branco. O prefeito Tião Bocalom visitou o espaço nesta segunda-feira, 5, para acompanhar de perto os serviços oferecidos e reforçar as ações do município voltadas à população migrante. A agenda contou com a presença do secretário municipal de Assistência Social e Direitos Humanos, João Marcos Luz, além de equipes técnicas que atuam diretamente no atendimento.
Atualmente, a Casa de Apoio acolhe 64 pessoas, sendo 54 venezuelanos, mas também recebe migrantes de outras nacionalidades.
Quem são os migrantes acolhidos
A coordenadora do abrigo, Carla Adriana Santos, explica que o espaço atende pessoas de diferentes países da América Latina e até de outros continentes.
“Nós acolhemos colombianos, que são a segunda maior população, cubanos a terceira, peruanos a quarta. Acolhemos argentinos, equatorianos, até sudaneses e franceses. Tivemos um casal francês no mês passado”, afirmou.
Segundo dados consolidados de 2025, 654 migrantes passaram pela Casa de Apoio, sendo 513 venezuelanos. Também foram atendidas pessoas da Colômbia (77), Peru (32), Equador (12), Cuba (10), Chile (5), além de registros dos Estados Unidos, França, Haiti e República Dominicana.
Do acolhimento emergencial à reconstrução da vida
De acordo com Carla Adriana, o trabalho desenvolvido no local começa pelo atendimento básico, mas vai além do socorro imediato.
“O nosso serviço consiste em tirar o migrante da vulnerabilidade máxima que ele chega. Muitas vezes ele vem migrando espontaneamente, a pé. Eles chegam precisando ser socorridos com alimentação e acolhimento humanitário”, explicou.
O atendimento inclui apoio para regularização documental e acesso às políticas públicas. “A gente fornece apoio na retirada do CPF, para que eles tirem o cartão do SUS, e leva para agendamento de consultas na atenção básica da saúde, porque eles chegam muitas vezes doentes, às vezes precisando de atendimento emergencial nas UPAs”, disse.
Há ainda encaminhamentos à Defensoria Pública, quando há violação de direitos, e parcerias voltadas à empregabilidade. “Temos feito constantemente processos admissionais pela casa para conduzir esse migrante ao mercado de trabalho”, afirmou a coordenadora.
Cerca de 30 crianças estão atualmente acolhidas no abrigo. Segundo Carla, muitos migrantes manifestam o desejo de retornar ao país de origem.
“A maioria quer regressar, porque suas casas estão lá. Muitos são refugiados políticos e outros buscam melhores condições de vida, porque a fome lá está muito grande nesse sistema atual de governo”, declarou.
Prefeito defende acolhimento como dever humanitário
Durante a visita, o prefeito Tião Bocalom destacou que o acolhimento aos migrantes vai além de uma política pública e representa uma obrigação humanitária. “É nossa obrigação, porque nós somos seres humanos. Independente de onde venha, é um ser humano”, disse.
Ele lembrou que mais de 8 milhões de venezuelanos deixaram o país nos últimos anos e relatou os motivos que levam essas pessoas a buscar refúgio.
“Eles corriam do massacre psicológico, do massacre de fome e do massacre civil. Quando você não está bem no seu país, você procura outro país”, declarou.
Bocalom ressaltou que o município tem arcado com custos que deveriam ser compartilhados pela União. “Trata-se de uma ação que deveria ser do governo federal, bancada pelo governo federal, mas a nossa prefeitura tem bancado”, afirmou.
O prefeito também comentou o cenário político da Venezuela e a expectativa de retorno dos migrantes. “Todo mundo quer retornar para o seu país, mas infelizmente tiveram que sair. Agora, com essa libertação que está sendo realizada lá na Venezuela, tomara a Deus que a democracia se reinstale”, declarou.
Atendimento social, saúde e trabalho
O secretário municipal de Assistência Social e Direitos Humanos, João Marcos Luz, detalhou a estrutura de serviços oferecida no abrigo. “Aqui nós temos atendimento social, psicológico, encaminhamento para a saúde, carro permanente para levar ao socorro e à fundação hospitalar. A gente tira documento, CPF, inclui no Cadastro Único e no Bolsa Família”, afirmou.
Segundo ele, a Casa de Apoio também atua diretamente na inserção profissional. “A partir da Casa dos Migrantes, encaminhamos para portas de trabalho. Só agora, nesse segundo semestre, conseguimos empregar nove pessoas na iniciativa privada”, disse.
João Marcos Luz voltou a cobrar maior apoio financeiro do governo federal. “O governo federal infelizmente tem falhado. A segunda parcela do segundo semestre do ano passado até hoje não caiu, e os municípios estão arcando com 70% da despesa”, afirmou. “ Nós precisamos de recursos, de dinheiro”, completou, ao destacar que alimentação e saúde são demandas urgentes.








