Alguns cães têm uma habilidade surpreendente para aprender palavras novas sem que ninguém esteja tentando ensiná-los diretamente. Um novo estudo mostra que esses animais conseguem memorizar o nome de objetos apenas ao ouvir conversas entre humanos, de forma parecida com o que acontece no desenvolvimento da linguagem em crianças pequenas.
A pesquisa foi conduzida por uma equipe liderada pela cientista cognitiva Shany Dror, da Universidade Eötvös Loránd, na Hungria, e publicada na última quinta-feira (8/1) na revista Science. Os resultados ajudam a ampliar o entendimento sobre como cães processam informações verbais no convívio cotidiano com seus donos.
Cães que aprendem palavras sem treino
O estudo acompanhou um grupo específico de cães já conhecidos por reconhecer o nome de diversos brinquedos. Esses animais, descritos pelos pesquisadores como aprendizes excepcionais de palavras, foram selecionados justamente por demonstrarem essa capacidade antes do início dos testes.
Em um dos experimentos, os donos foram orientados a conversar naturalmente com outra pessoa sobre um brinquedo novo enquanto o cão apenas observava a interação. O animal não era chamado, nem recebia ordens. Após alguns dias ouvindo essas conversas, os cães foram desafiados a buscar o brinquedo correto entre várias opções conhecidas.
Sete dos dez cães testados conseguiram identificar o objeto novo apenas pelo nome ouvido anteriormente. O desempenho foi semelhante ao observado quando os donos falavam diretamente com o animal, o que indica que a aprendizagem ocorreu de forma passiva, a partir da escuta.
Esse tipo de aquisição de vocabulário lembra um mecanismo já bem documentado em bebês humanos por volta dos 18 meses, quando a criança aprende palavras ao ouvir adultos conversando entre si, sem ser o foco da comunicação.
Aprender mesmo sem ver o objeto
A equipe também quis saber se os cães seriam capazes de aprender o nome de um brinquedo que estivesse fora de vista, um desafio ainda maior do ponto de vista cognitivo. Nesse teste, o dono colocava um brinquedo novo dentro de um recipiente enquanto o cão observava. Em seguida, o objeto era retirado e guardado novamente, fora do campo de visão do animal.
Mesmo sem ver o brinquedo, o dono se referia a ele pelo nome durante a conversa. Depois, o cão precisava identificar corretamente o objeto entre vários outros brinquedos conhecidos.
Cinco dos oito cães avaliados conseguiram fazer essa associação com uma taxa de acerto superior ao esperado pelo acaso. Quando o teste foi repetido duas semanas depois, o desempenho se manteve, o que sugere que o aprendizado foi, ao menos temporariamente, consolidado.
Talento raro entre os cães
Os pesquisadores também aplicaram os mesmos testes em cães de família considerados comuns, da mesma raça dos animais talentosos avaliados.
Nesse grupo, os resultados não se repetiram, indicando que a habilidade não depende apenas da raça, mas de características individuais ainda pouco compreendidas.
Para Dror, os resultados mostram que certos processos cognitivos envolvidos na aprendizagem de palavras não são exclusivos dos humanos. Segundo ela, “em condições adequadas, alguns cães apresentam comportamentos muito semelhantes aos observados em crianças pequenas”.
Por Metrópoles