Virar o calendário costuma vir acompanhado de uma lista ambiciosa de promessas: acordar cedo, fazer exercícios todos os dias, comer melhor, economizar dinheiro, meditar. Mas, poucas semanas depois, a maioria dessas resoluções fica pelo caminho. A boa notícia é que o problema não é falta de força de vontade — é o cérebro. E a neurociência já sabe como contornar essa resistência natural às mudanças.
Especialistas explicam que o cérebro humano é programado para economizar energia e buscar recompensas imediatas. Por isso, metas grandes demais ativam um sistema interno de alerta que gera procrastinação, desconforto e abandono. A estratégia mais eficaz, segundo os neurocientistas, é ir na contramão do exagero: reduzir expectativas, dividir objetivos em passos mínimos e repetir ações simples até que elas se tornem automáticas.
A médica Safia Debar, especialista em resiliência da Mayo Clinic, afirma que o erro mais comum é tentar mudar tudo de uma vez. “Cinco minutos de exercício por dia já são suficientes para criar um hábito. O cérebro aceita melhor mudanças graduais do que transformações radicais”, explica. A constância, não a intensidade, é o que convence a mente a cooperar.
O estresse, muitas vezes visto como vilão, também pode ser um aliado. Para o neurocientista brasileiro Marcelo Bigliassi, professor da Universidade Internacional da Flórida, um certo nível de desconforto é essencial para o progresso. “O estresse moldou a evolução humana. Quando bem administrado, ele fortalece a resiliência e ajuda o cérebro a redefinir limites”, diz. Estudos mostram que a exposição gradual a pequenos desafios físicos ou mentais torna tarefas difíceis mais toleráveis — e até prazerosas.
Outro obstáculo poderoso é a gratificação instantânea. A psicóloga Naomi Sadeh, da Universidade de Delaware, lembra que o cérebro prefere recompensas imediatas a benefícios futuros. Por isso, ela recomenda associar hábitos difíceis a estímulos positivos, como ouvir uma série favorita apenas durante a caminhada ou o treino. “E, se houver um deslize, nada de culpa excessiva. Vergonha e autocobrança sabotam mais do que ajudam”, alerta.
Planejamento e ambiente também fazem diferença. Bilhetes pela casa, roupas de treino à vista, refeições preparadas com antecedência e apoio de amigos funcionam como atalhos para o cérebro automático, responsável pela maior parte das nossas decisões diárias.
No fim das contas, especialistas concordam em um ponto: mudar não exige força heroica, mas repetição inteligente. Começar pequeno, aceitar imperfeições e manter o foco em poucos objetivos pode ser exatamente o que faltava para que, em 2026, as resoluções deixem de ser promessas e passem a ser rotina.
Com informações do Correio Braziliense






