Adiar a faxina de casa, deixar um relatório do trabalho para depois ou trocar qualquer tarefa por alguns minutos nas redes sociais são alguns exemplos práticos de procrastinação que quase todo mundo já viveu. Muitas vezes, esse tipo de comportamento é atribuído a fatores psicológicos, como falta de disciplina ou má gestão do tempo. Mas, agora, novas evidências científicas sugerem que o hábito pode estar enraizado em um mecanismo específico do cérebro.
Por meio de experimentos com primatas, pesquisadores da Universidade de Kyoto, no Japão, liderados pelo neurocientista Ken-ichi Amemori, verificaram a existência de um aparato neural que, quando percebe uma atividade como desconfortável, punitiva ou estressante, tende a desincentivá-la. O fenômeno biológico parece ocorrer mesmo quando as tarefas em questão estão associadas a recompensas.
Os resultados observados pela equipe renderam a publicação de um artigo científico na revista especializada Current Biology na sexta-feira passada (9).
O “freio” neural da procrastinação
A análise dos dados revelou o papel central da comunicação entre duas estruturas do cérebro localizadas nos gânglios da base: o estriado ventral (EV) e o pálido ventral (PV). Essas regiões são amplamente conhecidas por sua participação nos sistemas de recompensa, prazer e motivação.
Segundo os pesquisadores, quando o cérebro antecipa uma punição ou experiência desagradável, o estriado ventral é rapidamente ativado e envia sinais inibitórios ao pálido ventral – área normalmente associada ao impulso para iniciar uma ação. O resultado é uma redução do drive motivacional, mesmo quando a recompensa final é atrativa. O cérebro basicamente “puxa o freio de mão” antes que a ação comece.
Para confirmar a função específica desse circuito, a equipe recorreu a uma técnica quimiogenética, capaz de interromper temporariamente a comunicação entre o estriado ventral e o pálido ventral por meio da administração de um fármaco. Quando essa via foi inibida, os macacos recuperaram a motivação para iniciar as tarefas que envolviam o jato de ar, sem causar alteração nos testes baseados em recompensa.
Tal intervenção não aumentou a motivação de forma geral, apenas em contextos aversivos. Isso indica que o circuito EV-PV não regula o desejo de agir em todas as situações, mas de maneira seletiva quando há expectativa de desconforto, como nos cenários típicos de procrastinação cotidiana.
Implicações para a saúde mental
As descobertas vão além da explicação de hábitos corriqueiros. Déficits motivacionais são sintomas centrais de transtornos psiquiátricos, como depressão e esquizofrenia, nos quais pacientes relatam dificuldade extrema para iniciar atividades, mesmo aquelas potencialmente prazerosas. Como fornece evidências causais de que a via EV-PV medeia a supressão da motivação em contextos aversivos, o estudo aponta esse circuito como um possível alvo para futuras abordagens terapêuticas.
Os registros eletrofisiológicos também mostraram que o estriado ventral responde rapidamente a estímulos negativos, enquanto a atividade de regiões associadas à iniciação comportamental diminui de forma gradual. A dinâmica sugere que sinais aversivos vão sendo integrados ao longo do tempo, moldando o estado motivacional e favorecendo a evitação.
Por mais que a ideologia de valorização da produtividade associe a procrastinação a um problema, Amemori alerta que esse circuito desempenha uma função protetora essencial. “O excesso de trabalho é muito perigoso. Esse circuito nos protege da exaustão”, observa, em entrevista à revista Wired.
Em outras palavras, o mesmo mecanismo que nos leva a adiar tarefas desagradáveis também ajuda a evitar a sobrecarga física e mental. Por isso, qualquer tentativa futura de modular esse sistema, seja por medicamentos ou outras intervenções, exigirá cautela e pesquisas adicionais, para não comprometer os processos naturais de proteção do cérebro.
Por: Revista Galileu








