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Saiba por que adiar celulares pode favorecer desenvolvimento infantil

Caso de famílias que optaram por trazer telefones fixos de volta inicia debate sobre desenvolvimento infantil, atenção e habilidades sociais.

A Gazeta do Acre por A Gazeta do Acre
19/01/2026 - 15:58
Annette Riedl/picture alliance via Getty Images

Annette Riedl/picture alliance via Getty Images

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Em um cenário em que crianças aprendem a deslizar o dedo na tela antes mesmo de saber escrever, especialistas em desenvolvimento infantil reforçam um alerta: o uso precoce e excessivo de smartphones pode comprometer áreas fundamentais da infância. Para a psicóloga Cibele Santos, a discussão não deve girar em torno de proibir a tecnologia, mas de compreender o momento adequado para introduzi-la.

“O cérebro infantil ainda está em formação. Quando a criança é exposta cedo demais a estímulos constantes, notificações e conteúdos fragmentados, há prejuízos reais na atenção, na memória e na capacidade de autorregulação”, explica a especialista.

O tema ganhou força recentemente após a repercussão de um vídeo que mostra uma criança recebendo um telefone fixo como alternativa ao smartphone. A cena viralizou nas redes e reacendeu um debate sobre infância, limites digitais e conexão real.

Atenção, memória e aprendizado em risco
Segundo Cibele, um dos primeiros impactos do uso excessivo de telas aparece no desenvolvimento cognitivo. Crianças que passam longos períodos em dispositivos digitais tendem a apresentar maior dificuldade de concentração em tarefas que exigem foco contínuo, como leitura, escrita e resolução de problemas.

“O cérebro se acostuma a estímulos rápidos e recompensas imediatas. Isso torna atividades escolares mais desafiadoras e, muitas vezes, menos atrativas”, afirma.

Ela reforça que o problema não é o acesso pontual à tecnologia, mas a substituição de experiências essenciais da infância, como brincar, imaginar, explorar o ambiente e interagir presencialmente.

Comunicação real versus interação digital
Outro ponto central destacado pela psicóloga é o impacto nas habilidades sociais. A comunicação mediada por telas reduz o contato com expressões faciais, tom de voz e linguagem corporal, elementos fundamentais para o desenvolvimento da empatia.

“Crianças aprendem a se relacionar observando e vivendo interações reais. Quando a maior parte da comunicação acontece por mensagens ou aplicativos, esse aprendizado fica incompleto”, diz Cibele.
Nesse contexto, iniciativas que incentivam a conversa por voz, como o uso de telefones fixos, podem ter um papel positivo. “Falar ao telefone exige escuta ativa, turnos de fala, organização do pensamento e segurança emocional.”

O exemplo das famílias que decidiram esperar
Foi exatamente essa lógica que levou um grupo de pais de Northbrook, em Illinois (EUA), a firmar um pacto coletivo para adiar o uso de smartphones até o fim do 8º ano escolar. Entre eles estão Meg Kate McAlarney e o marido, Kyle, pais de três crianças entre 4 e 10 anos.

A decisão ganhou repercussão depois que Meg compartilhou um vídeo da filha, Maddie, então com 8 anos, usando um telefone fixo pela primeira vez no Natal. O registro ultrapassou 3 milhões de visualizações no TikTok.

“Eu nunca imaginei que um momento tão simples pudesse tocar tantas pessoas”, contou Meg à revista PEOPLE. “A reação mostrou o quanto as pessoas estão carentes de conexão real.”

Estímulos rápidos ativam circuitos de recompensa, podendo gerar dependência e afetar a capacidade de concentração e o desenvolvimento de habilidades como criatividade, gerando irritabilidade e impulsividade

Um meio-termo entre o mundo analógico e o digital
Como alternativa ao smartphone, as famílias optaram por telefones fixos infantis, sem telas, internet ou redes sociais. O modelo permite chamadas apenas para contatos autorizados, oferecendo autonomia sem os riscos do ambiente digital.

“O telefone fixo pareceu um meio-termo perfeito”, explica Meg. “Ela pode falar com amigos, ligar para familiares que moram longe e sentir essa independência — sem a sobrecarga de um smartphone.”
Para Cibele Santos, esse tipo de escolha está alinhado com uma introdução mais saudável da tecnologia.

“O problema não é a tecnologia em si, mas o excesso e a falta de intencionalidade. Adiar o smartphone pode preservar etapas importantes do desenvolvimento emocional e social.”
Autoestima e comparação precoce
Um dos pontos mais sensíveis do acesso antecipado aos celulares, segundo a psicóloga, está relacionado à autoestima. Mesmo com uso aparentemente controlado, a exposição a conteúdos idealizados pode gerar comparações nocivas.

“A criança ainda está construindo sua identidade. Quando se compara constantemente com padrões irreais, pode desenvolver insegurança, ansiedade e sensação de inadequação”, alerta.
Esses efeitos, segundo ela, nem sempre são imediatos. Podem surgir de forma silenciosa, refletindo-se em mudanças de humor, retraimento social ou queda no rendimento escolar.

Sono, comportamento e saúde emocional
Cibele também chama atenção para a interferência das telas na qualidade do sono infantil. A luz azul e o estímulo constante antes de dormir afetam o descanso, com impacto direto no comportamento e no bem-estar emocional.

“O sono é essencial para a consolidação da memória, o equilíbrio emocional e o crescimento saudável. Crianças que dormem mal tendem a ficar mais irritadas, impulsivas e menos concentradas”, explica.
Impactos positivos observados na prática

No caso de Maddie, a mudança foi sentida rapidamente. A menina tem um Plano Educacional Individualizado (IEP) desde a educação infantil, e o hábito de conversar por telefone ajudou a fortalecer sua comunicação e confiança.

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“Ouvimos ela rindo, conversando, se expressando com segurança. Ver essa evolução de forma tão natural tem sido o maior presente para nós”, afirma a mãe.

Ao contrário das mensagens de texto, a conversa por voz exige escuta ativa, leitura de entonação e interação em tempo real, habilidades fundamentais para o desenvolvimento social.

Tecnologia com intencionalidade
Para a psicóloga, o caminho mais saudável não passa por proibições extremas, mas por escolhas conscientes.

“Cada família tem sua realidade. O mais importante é que o uso seja intencional, com limites claros e supervisão. Tecnologia não substitui vínculo, presença e escuta”, reforça Cibele.
Ela finaliza com um recado direto aos pais: não existe modelo perfeito.

“A parentalidade já vem carregada de cobranças. O ideal é observar a criança, confiar no próprio instinto e fazer escolhas alinhadas ao desenvolvimento emocional dela.”

Um debate que ultrapassa gerações
A história do telefone fixo, em meio à hiperconectividade, mostra que muitas famílias estão buscando algo que parece simples, mas se tornou raro: tempo, atenção e conversa. Mais do que rejeitar a tecnologia, o movimento propõe uma pergunta essencial — quando é a hora certa?

“Não existe resposta única”, conclui Meg Kate. “Estamos todos tentando fazer o melhor possível, aprendendo no caminho.”

Por: Metrópoles

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