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Após apreensão de 700 cartões, MPF recomenda fim da retenção de benefícios por comerciantes em Jordão

Após apreensão de 700 cartões, MPF recomenda fim da retenção de benefícios por comerciantes em Jordão

A apreensão de cerca de 700 cartões de benefícios sociais e previdenciários em posse de comerciantes de Jordão, no interior do Acre, levou o Ministério Público Federal (MPF) a expedir recomendação para a interrupção imediata da prática no município. A orientação alcança cartões pertencentes a indígenas e não indígenas e foi motivada por investigação que identificou a retenção como forma de garantia de dívidas e de acesso a dinheiro em espécie.

As apurações apontam que os cartões eram retidos principalmente em vendas de mercadorias a prazo no comércio local. Em outros casos, os beneficiários entregavam os cartões em troca da liberação imediata de dinheiro, situação associada à precariedade da rede bancária existente no município. Para o MPF, no entanto, a ausência de serviços financeiros não justifica a exploração da vulnerabilidade social da população.

No documento, o órgão destaca que Jordão não possui agência da Caixa Econômica Federal, responsável pelo pagamento de benefícios sociais.

O atendimento bancário no município sofreu sucessivos retrocessos nos últimos anos: o canal lotérico foi fechado em 2023 e o sistema “Caixa Aqui” teve as atividades suspensas no final de 2025, após suspeitas de envolvimento em irregularidades investigadas pela polícia.

O procurador da República Luidgi Merlo Paiva dos Santos, autor da recomendação, afirma que a retenção de cartões é ilícita e pode configurar crimes previstos no Código de Defesa do Consumidor, no Estatuto da Pessoa Idosa e o crime de apropriação indébita.

Segundo ele, a prática compromete a autonomia financeira dos beneficiários. “A posse e retenção de cartões magnéticos ou quaisquer documentos retira a liberdade financeira dos consumidores, sejam indígenas ou não, e atenta contra o princípio da dignidade da pessoa humana”, destaca.

Orientações e possíveis encaminhamentos

Na recomendação, o MPF orienta que os comerciantes deixem de aceitar cartões magnéticos como garantia de dívidas ou como condição para qualquer tipo de transação. O descumprimento pode resultar no ajuizamento de ações civis e criminais.

O documento também foi encaminhado à Prefeitura de Jordão, à Secretaria Municipal de Assistência Social e à Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos, para a promoção de campanhas educativas. A Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ) e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) foram notificadas para auxiliar na conscientização das comunidades afetadas.

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