O Brasil é um país constitucionalmente laico e marcado por uma rica diversidade espiritual. No entanto, os números de intolerância religiosa — especialmente contra religiões de matriz africana, afro-brasileira e ameríndia — continuam a desafiar o direito à liberdade de culto.
Nesta quarta-feira, 21, o país celebra o Dia de Combate à Intolerância Religiosa. A data foi instituída em 2007 em homenagem à Iyalorixá Mãe Gilda, do terreiro Axé Abassá de Ogum (BA), vítima de intolerância por ser praticante de religião de matriz africana.
Apesar das políticas públicas e ações de conscientização ao respeito à liberdade religiosa, os índices de violência seguem alarmantes. O Disque Direitos Humanos – Disque 100, canal de denúncias do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), registrou 2.774 denúncias de intolerância religiosa entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. Somente nos primeiros dias de janeiro, 2026 já soma 51 denúncias, indicando que a intolerância religiosa é uma violação recorrente.
Diálogo e união

No Acre, o diálogo entre diferentes lideranças tem sido uma ferramenta poderosa para derrubar muros de preconceito. Padre Massimo Lombardi, conhecido por sua atuação à frente do Instituto Ecumênico Fé e Política, defende que a religião deve servir para unir, e não para segregar. Para ele, o combate à intolerância passa pelo reconhecimento do “outro” como um irmão.
“Nós vivemos num país rico em diversidade religiosa e eu poderia dizer que no Acre, por exemplo, a ‘religião’ predominante é a diversidade. Mas ainda enfrentamos desrespeito e violência motivados por causa de crenças diferentes. Então, neste contexto, o diálogo entre as religiões se torna fundamental para combater esse fundamentalismo”, destaca o sacerdote católico.
Buscando promover uma cultural de paz e amor, como ensinou Cristo, Padre Massimo lidera e articula o Instituto Ecumênico Fé e Política. Mais que a união entre diferentes vertentes religiosas, a instituição buscar despertar o senso crítico social sobre a máxima do amor e do respeito.
“Neste combate à intolerância religiosa, destaca-se o trabalho do nosso Instituto, que é uma organização que promove a cultura da paz e o diálogo, a valorização do diferente, mantendo, é claro, cada um a própria identidade”, observa o reverendo.
Apesar de reunir uma pluralidade de credos, as ações do instituto ainda são alvo de críticas por àqueles que optam em reproduzir a desinformação e a violência. “Tem gente que pensa diferente, por exemplo. Aí, às vezes, tem denominações que acham que o ecumenismo tenta unir todas as religiões numa única religião. Mas isso é completamente errado. Nós estamos vivenciando o ecumenismo garantindo a cada qual a própria fé, mas respeitando a fé do outro. Nós queremos incentivar a colaboração e o respeito mútuo entre as diferentes crenças. Sobretudo o diálogo com as outras religiões e ajuda, inclusive”, salienta.
A resistência e a consciência

Sacerdotisa de Umbanda há mais de 20 anos, Mãe Marajoana de Xangô é um exemplo de como a prática cotidiana do amor transforma. Apesar de já ter sido vítima de intolerância religiosa, a sacerdotisa acredita no poder da união e do respeito à diversidade.
“Eu sou espiritualista, que é o sentido de buscar a espiritualidade de alma, e sou umbandista como religião. E professar a minha fé é um ato de coragem, amor, resistência espiritual e honra aos meus ancestrais. A fé não separa, ela acolhe independente da vertente, da pluralidade ou diversidade. Nada está separado, tudo está junto, pois Olorum/Deus não oprime, ele acolhe”, observa Mãe Marajoana, salientando que “a fé é algo íntimo, cada um encontra dentro da sua intimidade a forma como melhor se conecta”.
Para a sacerdotisa, o combate à intolerância começa na compreensão de que o sagrado não pode ser limitado por rótulos ou fronteiras religiosas. Em sua visão, Deus é uma inteligência maior e onipresente que se manifesta em múltiplas formas, seja como Olorum, Zambi, ou através da força dos Orixás e guias, entre outras. Ela defende que a presença divina é viva e não fragmentada, pulsando no sopro das matas, no silêncio que ensina e em tudo que traz movimento à vida. Ao reconhecer Deus na natureza, nos animais e, principalmente, no outro — mesmo que este seja diferente — a dirigente espiritual propõe uma fé que une em vez de segregar.
“Atacar a crença do outro para achar que está dentro da sua verdade, é um movimento do ego. Mas, quando eu tenho dentro de mim a resolução, não dou a interferência para que o outro entre ultrapasse os meus limites. A gente só vai conseguir aprender a lidar com as diferenças, quando aprendermos a tratar as nossas próprias diferenças com amorosidade, com tranquilidade. Portanto, busco viver o meu, sem estar olhando para o que o outro pensa, acha, porque o que o outro pensa e como age é a forma dele. A sua verdade não anula a minha e a minha verdade não anula a sua. Digo sempre que quando nos propomos a nos conhecer, damos a liberdade de cada um conduzir o seu próprio caminho”, destaca.
A união faz a força
Diante de um cenário onde os números ainda revelam as cicatrizes da incompreensão, as vozes de Padre Massimo e Mãe Marajoana ressoam como um chamado à consciência coletiva. O combate à intolerância religiosa não é uma tarefa restrita aos templos ou terreiros, mas um dever de toda a sociedade que deseja ser verdadeiramente democrática. Como bem pontua o trabalho do Instituto Ecumênico, respeitar o sagrado do próximo não exige a renúncia da própria identidade, mas o exercício da alteridade.
Para os que professam sua fé no Acre, a resistência é alimentada pela certeza de que o amor é a única linguagem que não precisa de tradução entre as diferentes crenças. E, mesmo quando o preconceito tenta erguer barreiras ou silenciar tambores e orações, prevalece o ensinamento de que os momentos de dificuldade são apenas fases de transgressão social.
“A intolerância acaba quando entendemos que ninguém perde porque o outro cresce diferente. Perdemos quando deixamos de ser humanos. Para a gente acabar com a violência é necessário que a gente busque se reconhecer e olhar para dentro de nós mesmos. Nos tornarmos uma consciência e abrirmos mão do ego, pois Deus nos ensina uma única religião, que é o amor”, destaca Mãe Marajoana.
Para Padre Massimo, o caminho do amor se apresenta no diálogo. “A intolerância, muitas vezes, vem da falta de conhecimento sobre as outras religiões. Então a ideia do diálogo ecumênico é que cada um mantenha sua própria crença, mas também respeite o direito do outro de acreditar no que quiser. Coisa mais linda”.








