Aos 23 anos, Paulo Carlos Araújo Nogueira, aluno do curso de Medicina da Universidade Federal do Acre (Ufac), acaba de alcançar um marco importante em sua trajetória acadêmica ao ser selecionado para o EquiMED Brazilian Illinois, programa internacional de intercâmbio em inovação em saúde promovido pela University of Illinois College of Medicine at Peoria (UICOMP), nos Estados Unidos. A iniciativa reúne estudantes e especialistas do Brasil e da América do Norte para o desenvolvimento de soluções voltadas à melhoria da assistência em saúde em contextos de vulnerabilidade social.
A oportunidade representa um marco em uma trajetória iniciada ainda no ensino médio, em escolas públicas de Rio Branco, e construída a partir de esforço, apoio familiar e acesso à educação.
Morador do bairro Belo Jardim I, Paulo cursou todo o ensino médio no Colégio Estadual Barão do Rio Branco (CERB). “Bom, meu ensino médio foi todo em escola pública. Eu estudei no CERB. Vim de uma comunidade carente. Eu era morador do Belo Jardim 1”, conta.
Após concluir os estudos, ele teve três anos de preparação até conquistar a vaga no curso de Medicina. “Eu passei três anos tentando passar em medicina. Após o ensino médio, eu consegui uma bolsa no primeiro ano após o ensino médio, uma bolsa de estudo no curso Aprovação e passei três anos lá com essa bolsa até passar em medicina. Eu já tinha tirado 980 na redação do Enem duas vezes e eu passei no terceiro ano”, conta.
O interesse pela medicina vem desde a infância e foi sendo reforçado ao longo do tempo.

“Sempre quis, é meu sonho desde pequeno, eu sonhava com isso”, afirma. Para ele, a medicina está associada a um compromisso que vai além da profissão e relaciona essa motivação à fé cristã e à educação recebida em casa. “A questão de a medicina ser um sacerdócio em que você doa sua vida, seu conhecimento, seu tempo pelos outros, não tenho obrigação de ajudar, mas eu ajudo porque é um propósito”, diz. “A educação na minha vida foi tudo mesmo não tendo muitas condições, meus pais sempre lutaram por isso”.
Atualmente no sexto período de Medicina, o estudante destaca o papel da educação como elemento central em sua trajetória. “Em relação à educação, meus pais sempre me apoiaram, mesmo sem terem condições no início e Deus foi abrindo portas, no curso Aprovação eu consegui a bolsa para estudar pro Enem, na faculdade eu estou tendo a chance de aprender com os melhores”, afirma.
Hoje, segundo ele, a família formada pela esposa e o filho é um fator adicional de motivação. “São minha base para eu me motivar mais a ser um médico melhor”.

Seleção para o EquiMED
A participação de Paulo no EquiMED ocorreu por indicação institucional. Ele foi apresentado ao programa pela coordenadora e representante internacional da iniciativa no Acre, a cirurgiã pediátrica Fernanda Lage, professora adjunta de Cirurgia da Ufac. “Sim, me apresentou e como tenho um histórico de referência aqui na universidade em relação à inovação e tecnologia em saúde fui indicado e selecionado”, explica.
Segundo o estudante, o perfil buscado pela coordenação envolvia experiência prévia em inovação.
“Foi indicação da coordenadora do projeto e representante internacional. Ela estava buscando um perfil de aluno que tivesse experiência em inovação, como já tenho alguns softwares de tecnologia assistiva na área da saúde”, relata.
No programa, Paulo atuará como aluno participante, contribuindo com a apresentação da realidade do Sistema Único de Saúde (SUS), compartilhando experiências locais e integrando equipes internacionais na criação de protótipos e projetos com potencial de impacto social. “A ideia central do programa é promover inovação, que mude a qualidade de vida de pessoas que moram em lugares precários”, resume.
Expectativas e próximos passos
A primeira etapa do intercâmbio acontece ainda em fevereiro, com uma imersão na região amazônica. “Vou agora no dia 17 de fevereiro para fazermos o primeiro contato com os alunos da UIC lá em Manaus. Nós vamos mostrar o SUS na prática, visitar comunidades carentes e desenvolver projetos inovadores no local”, explica. Há expectativa de que parte das ações seja ampliada futuramente para o Acre.
A etapa internacional, nos Estados Unidos, ainda não tem data definida, mas deve ocorrer no segundo semestre deste ano. Sobre as expectativas, Paulo afirma:
“A minha maior expectativa é conseguir aprender e colaborar com o projeto. Assim, vou conseguir fazer mais diferença na sociedade acreana. Um pouco ansioso, mas agora tô focando mais em me preparar para dar o meu melhor”.

O que é o EquiMED Brazilian Illinois
O EquiMED (Equidade, Inovação e Medicina) é um programa de intercâmbio bilateral criado pela Faculdade de Medicina da Universidade de Illinois em Peoria (UICOMP). A iniciativa conecta estudantes, professores e líderes de inovação do Brasil e dos Estados Unidos com o objetivo de desenvolver soluções em saúde adaptadas a contextos de recursos limitados.
O modelo do programa é estruturado em três fases: colaboração virtual prévia, imersão em campo na região amazônica (Acre e Manaus) e intercâmbio recíproco em Peoria, Illinois. Durante o processo, os participantes utilizam metodologias como Design Thinking e Biodesign para criar protótipos, estudos de caso e projetos com potencial de aplicação real.
Além da formação acadêmica, o EquiMED prevê investimentos diretos em projetos comunitários, produção de pesquisas publicáveis e fortalecimento de parcerias institucionais internacionais. A iniciativa busca posicionar regiões como o Acre no radar global da inovação em saúde, promovendo equidade, troca de conhecimento e soluções sustentáveis para sistemas públicos de saúde, como o SUS.
No Acre, o programa é coordenado pela médica Fernanda Lage, cirurgiã pediátrica, professora da Ufac e integrante de diversas instituições nacionais e internacionais ligadas à cirurgia, inovação e saúde pública.








