Enquanto muitos dormiam, confraternizavam ou ocupavam seu tempo com outras distrações em Cruzeiro do Sul, interior do Acre, uma jovem de 19 anos travava uma batalha silenciosa contra o relógio e o esgotamento físico.
Mais do que livros para “devorar”, a cruzeirense Alane da Páscoa Souza carregava a responsabilidade de uma faculdade em tempo integral, Enfermagem na Universidade Federal do Acre (Ufac), e o desejo latente de, um dia, vestir o jaleco branco da Medicina.
O esforço de Alane não foi em vão: ao abrir o portal do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), o brilho da tela revelou o que o coração já esperava: 940 pontos na redação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).
Para quem olha o número frio, pode parecer apenas uma nota alta. Para Alane, que sempre usufruiu do ensino público, concluiu o Ensino Médio em 2024 no Colégio Militar Dom Pedro II, cada ponto representa uma hora de sono perdida, um fim de semana de renúncia e a superação da ansiedade que insiste em bater à porta dos jovens que buscam, a partir da educação, melhores condições de vida.
Disciplina e foco
Conciliar uma graduação integral com a preparação para o vestibular mais concorrido do país é um desafio que poucos aceitam.
“O cansaço físico e mental era constante”, confessa Alane. Mas, nas entrelinhas do tema sobre o envelhecimento na sociedade brasileira (proposta da redação do Enem 2025), ela escreveu mais do que argumentos socioculturais: escreveu sua própria história de maturidade precoce.
A primeira reação ao ver o resultado foi o alívio. O choro, contido durante meses de pressão, transformou-se em abraço ao ser compartilhado com os pais, os primeiros a saberem que a filha está perto de alcançar o sonho de ser médica.
“O sonho de cursar Medicina nasceu do desejo de cuidar de pessoas e de compreender o funcionamento do corpo humano. A Medicina, para mim, representa mais do que uma profissão; é uma missão de responsabilidade social, empatia e compromisso com a vida. Vejo o médico como alguém que não apenas trata doenças, mas acolhe, orienta e transforma realidades. Escolher a Medicina é escolher servir, aprender continuamente e fazer a diferença na vida das pessoas, especialmente daquelas que mais precisam”, revela Alane.
A jovem universitária sabe que sua conquista é um símbolo. Em um estado onde as distâncias geográficas muitas vezes parecem diminuir as oportunidades, ela se levanta como uma prova viva de que o código postal não define o destino de um estudante.
“A escola pública não limita o potencial de ninguém”, afirma com a autoridade de quem venceu o sistema. “É possível superar limites, transformar realidades e construir um futuro promissor”. Hoje, Alane não celebra apenas 940 pontos. Ela celebra a certeza de que a disciplina vence o cansaço e que, para uma jovem determinada de Cruzeiro do Sul, o sonho da Medicina não tem fronteiras.








