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Festas, pressão e silêncio emocional: psicóloga acreana explica por que o fim de ano é difícil para muita gente

Festas, pressão e silêncio emocional: psicóloga acreana explica por que o fim de ano é difícil para muita gente

Foto: Freepik

Enquanto o fim de ano costuma ser associado a festas, encontros e celebrações, para muitas pessoas esse período é marcado por um peso emocional silencioso. Reflexões sobre metas não cumpridas, comparações nas redes sociais e a sensação de encerramento de ciclos fazem com que sentimentos como tristeza, angústia e solidão ganhem força. O portal A GAZETA conversou com a psicóloga acreana Genilsa Silva, que explica por que esse período pode ser emocionalmente desafiador para parte da população.

Segundo a profissional, o fim do ano carrega um simbolismo psicológico importante. Trata-se de um momento de fechamento, no qual emoções acumuladas ao longo dos meses, muitas vezes abafadas pela rotina, encontram espaço para emergir.

Comparações e redes sociais intensificam o impacto

Um dos fatores que mais contribuem para o sofrimento emocional nessa época é a comparação social. Retrospectivas, conquistas exibidas nas redes sociais e discursos sobre um “ano produtivo” acabam funcionando como gatilhos para sentimentos de insuficiência.

“As redes sociais, com as retrospectivas e os discursos sobre um ‘ano produtivo’, acabam estimulando a revisão de metas e resultados. Esse processo pode despertar sentimentos de insuficiência, culpa e frustração, especialmente quando a pessoa percebe que não conseguiu alcançar tudo aquilo que havia planejado”, explica a profissional. Segundo ela, esse movimento interno pode afetar diretamente a autoestima e a saúde emocional, tornando o fim de ano um período mais sensível.

Festas, pressão e silêncio emocional: psicóloga acreana explica por que o fim de ano é difícil para muita gente
Psicóloga Genilsa Silva/Foto: Arquivo Pessoal

A cobrança para “fechar o ano bem”

Outro ponto destacado pela psicóloga é a cobrança social para que todos estejam bem emocionalmente na virada do ano. A ideia de “fechar o ano bem” cria uma expectativa irreal e pouco acolhedora.

“Esse discurso cria a expectativa de que todas as pessoas deveriam estar bem emocionalmente, satisfeitas com suas trajetórias cheias de realizações, e acaba não abrindo espaço para outros sentimentos e emoções. Quando essa vivência individual não corresponde a esse ideal social, é comum que as pessoas passem a interpretar suas dificuldades como falhas pessoais, o que compromete diretamente o processo da autoestima”, relata a especialista.

Diante desse cenário, podem surgir ansiedade, sintomas depressivos e sentimentos profundos de inadequação. O clima generalizado de felicidade, característico do período, tende a ocultar essas fragilidades, o que pode intensificar ainda mais o sofrimento emocional.

“Por acreditar que não deveria se sentir assim, muitas pessoas evitam expressar suas fragilidades, algumas optando, inclusive, pelo silêncio emocional. Isso acaba acarretando outro ponto: o isolamento, que reforça o sofrimento psíquico, intensifica as dificuldades vivenciadas por algumas pessoas e dificulta, inclusive, a busca por apoio, ampliando ainda mais o impacto negativo sobre a saúde mental”, explica.

Silêncio emocional, luto simbólico e autocrítica 

Genilsa também chama atenção para o chamado luto simbólico, um processo psicológico que não está ligado à morte, mas à perda de expectativas, projetos ou versões idealizadas de si mesmo.

“Quando não encontram espaço emocional para acolher essas dores, elas tendem a se manifestar por meio da autocrítica intensa. Ou seja, essa autocrítica, assim como a perda de esperança, pode gerar um desânimo profundo”, diz a psicóloga.

A dificuldade de reconhecer que não se está bem, mesmo em um período socialmente associado à felicidade, acaba gerando ainda mais frustrações e a ausência de acolhimento dos próprios sentimentos. Nesse contexto, os pensamentos negativos sobre si mesmo se intensificam, agravando o sofrimento emocional, que muitas vezes é vivido de forma solitária.

“Esse processo se caracteriza por um estado de desânimo, no qual o indivíduo passa a olhar para seus próprios processos e para sua trajetória de vida de maneira muito rígida e, por vezes, até negativa. Essa perspectiva dificulta a resiliência e a ressignificação das experiências vividas, comprometendo, inclusive, a construção de novas perspectivas para o futuro. Ou seja, o impacto desse processo varia de acordo com a forma como cada indivíduo interpreta e analisa a sua própria trajetória”, conta a profissional.

Olhar para a própria trajetória com mais gentileza

Para atravessar o fim de ano de forma mais saudável, a psicóloga orienta que as pessoas tentem reconhecer sua trajetória como única, sem comparações excessivas. Avaliar o ano apenas pelo que não foi alcançado tende a intensificar o sofrimento.

“Quando o indivíduo consegue reconhecer aprendizados e crescimento ao longo de sua trajetória, essa vivência tende a ser elaborada de maneira mais saudável. Por outro lado, quando essa leitura se centra apenas na ideia de fracasso na percepção de não ter alcançado determinadas metas ou demandas o sofrimento emocional tende a se intensificar”, conclui.

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