Rio Branco foi escolhida para ser o ponto de partida da turnê nacional do Grupo dos Dez. Para a companhia mineira, referência no teatro negro contemporâneo, desembarcar na capital acreana este mês é um exercício de memória e um tributo a uma das figuras mais emblemáticas das artes cênicas brasileiras: João das Neves (1934-2018).
A celebração de 15 anos do grupo marca também o retorno aos palcos após o intervalo da pandemia, trazendo uma programação densa que ocupa a Usina de Arte João Donato a partir desta quarta-feira, 28. O projeto, viabilizado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura e pela Petrobras, prevê uma circulação por sete estados, mas é no Acre que o “corpo” e a “alma” do projeto se fundem.
Um dos pontos altos da programação é o lançamento do livro póstumo O Encenador e a Floresta. A obra revisita o período entre 1986 e 1991, quando João das Neves viveu no Acre, mergulhando em um teatro que dialogava diretamente com a política, a natureza e a resistência dos povos da floresta.
O lançamento, que ocorre no dia 28, às 19h, terá um tom de celebração afetiva. Artistas e músicos locais que trabalharam com João na década de 80 se reunirão para leituras dramáticas e interpretações musicais, acompanhados pela cantora Titane, parceira de vida e arte do diretor por duas décadas.
No palco: Dandara e Madame Satã
A temporada de espetáculos começa com Dandara Para Todas as Mulheres, nos dias 29 e 30 (quinta-feira e sexta-feira), obra que discute o feminino negro e a ancestralidade. Logo em seguida, no sábado, 31 e domingo, 1 de fevereiro, o público poderá conferir o premiado Madame Satã, espetáculo que narra a vida de João Francisco dos Santos, ícone da boemia carioca.
Curiosamente, Madame Satã é a única peça dirigida por João das Neves que continua em cartaz no país, tendo sido montada em 2015, quando o diretor já somava 80 anos. A montagem é um símbolo da “verve” crítica e da resistência que o Grupo dos Dez herdou do mestre, que também foi um dos fundadores do histórico Grupo Opinião.
Formação e Acessibilidade
Para além dos aplausos, o grupo reforça seu caráter social. Na tarde de quarta-feira, 28, a oficina “Ação Musical Dramatúrgica” abre espaço para o aperfeiçoamento de artistas locais, com prioridade para negros, indígenas e o público LGBTQIAPN+.
Segundo Bia Nogueira, integrante da equipe criativa e diretora musical, a ideia é “potencializar vozes que refletem o Brasil em toda a sua diversidade”.
Após Rio Branco, o projeto segue para cidades como Salvador, Fortaleza, Recife e Manaus, encerrando a jornada em Belo Horizonte.








