A floresta, o teatro e os povos indígenas se encontram nas páginas de O Encenador e a Floresta, obra póstuma de João das Neves que será lançada na próxima quarta-feira, 28, às 19h, na Usina de Arte João Donato, em Rio Branco. O livro é publicado pela Associação Campo das Vertentes (ACV) em parceria com a Relicário Edições.
Com prefácio de Ailton Krenak e ilustração de capa assinada pelo MAKHU (Movimento dos Artistas Huni Kuin), a obra estabelece um diálogo entre artes cênicas, cosmologias indígenas e pensamento ambiental, reunindo textos fundamentais do dramaturgo, ator e diretor teatral.
Organizado por Mara Vanessa Dutra, Rodrigo Cohen e Titane, o livro inclui o inédito Diário de Viagem ao Yuraiá e outros escritos que evidenciam a profunda relação de João das Neves com a Amazônia e com os povos da floresta. Amigos do artista desde os tempos em que viveu no Acre, Ailton Krenak e Ibã Huni Kuin ajudam a revelar as camadas espirituais, políticas e poéticas presentes na obra.
A publicação foi fomentada pelo Programa Funarte Retomada 2023 – Teatro e integra uma série de iniciativas da ACV voltadas à preservação e difusão do acervo de João das Neves. O posfácio, assinado por Mara Vanessa Dutra, contextualiza o período vivido pelo artista no Acre e recupera sua intensa atuação junto a lideranças indígenas e ambientalistas, além da criação do Grupo Poronga de Teatro e da chamada trilogia acreana: Caderno de Acontecimentos, Tributo a Chico Mendes e Yuraiá – o rio do nosso corpo.
O texto foi construído a partir de entrevistas com familiares, artistas colaboradores, indígenas, indigenistas e representantes de instituições com as quais João das Neves dialogou ao longo de sua trajetória.
Lançamento e homenagem
O evento de lançamento contará com leituras de trechos do livro e interpretações musicais de espetáculos históricos, realizadas por atores e músicos acreanos que trabalharam com João das Neves, além da participação especial de Titane, parceira de vida e criação do dramaturgo por duas décadas.
O lançamento também ocorre no contexto do projeto Grupo dos Dez – 15 anos de Teatro Negro, que inicia sua turnê nacional por Rio Branco entre os dias 29 de janeiro e 1º de fevereiro, e presta homenagem aos 90 anos de nascimento de João das Neves, celebrado em 31 de janeiro.
João das Neves e o Acre
Natural do Rio de Janeiro e radicado em Minas Gerais, João das Neves viveu no Acre entre 1986 e 1991, período decisivo de sua trajetória artística e política. Foi nesse intervalo que fundou o Grupo Poronga de Teatro e desenvolveu obras profundamente ligadas às questões ambientais e indígenas, como Tributo a Chico Mendes e Yuraiá – o rio do nosso corpo.
A experiência acreana incluiu ainda uma intensa convivência com o povo Huni Kuin e a realização de cursos de teatro em Rio Branco, vivências que marcaram definitivamente sua escrita e seu pensamento cênico. Esses encontros agora se desdobram na publicação de O Encenador e a Floresta, que chega ao público como registro sensível e político de uma trajetória profundamente conectada à Amazônia.
João das Neves faleceu em 24 de agosto de 2018, em Lagoa Santa (MG), mas seu legado segue vivo no teatro brasileiro e nas múltiplas formas de resistência cultural que ajudou a construir.









