No Dia da Visibilidade Trans, celebrado nesta quinta-feira, 29, o Acre reafirma que a existência de pessoas trans e travestis não é apenas um ato de sobrevivência, mas uma construção de novos futuros.
Através das histórias de Brenn Souza, primeira mulher trans a presidir a Federação de Teatro do Acre (FETAC), e de Murilo Augusto, empresário e ativista, o portal A GAZETA mergulha em trajetórias onde o “ser trans” é o alicerce para lideranças que transformam a cultura e a sociedade.
O palco como identidade e poder

A atriz e produtora acreana, Brenn Souza, 29 anos, compreendeu seu processo de transição de gênero em meados de 2015 – quando, à época, interpretou uma personagem feminina em uma peça no Curso de Artes Cênicas da Universidade Federal do Acre (Ufac).
“A minha transição começa quando eu entro no curso de Teatro da Ufac, que é onde dá o start para eu chegar no lugar em que sou hoje: Brenn Souza, travesti. Foi através de um espetáculo que eu comecei a me questionar quem sou eu e aquela criança trans, que se resguardou por medo de uma sociedade homofóbica, voltou e disse: ‘Amore, vamos começar tudo de novo do zero?’. Comecei a estudar sobre identidade de gênero, raça e classe para me entender e, a partir da vivência com a arte, que me salvou e me curou da ‘cura’ que nunca foi feita dentro da igreja, vem sendo construída essa Brenn que sou até hoje”, endossa a artista.
Não diferente de outras mulheres trans, Brenn também enfrentou e ainda enfrenta, de cabeça erguia, violências sociais geradas pela transfobia e a desinformação de uma sociedade patriarcal que preconceitos. Contudo, a cruzeirense não se dobra aos obstáculos, e das pedras constrói o seu próprio castelo. Atualmente a atriz ocupa a presidência da Fetac – um marco que vai além da burocracia institucional; é um símbolo de ocupação em um estado onde as artes cênicas agora são lideradas por uma travesti.

“Assumir a presidência enquanto a primeira travesti a estar à frente da federação é um marco histórico, porque ocupar esse lugar é ocupar um lugar de resistência. É entender que é possível a gente hackear esse sistema e ocupar esses espaços que não são pensados para corpos como o meu”, observa.
A arte, para Brenn, foi a ferramenta de sua própria revelação. Enquanto o teatro muitas vezes é visto como o lugar de usar máscaras, para ela foi o espaço de retirá-las. “O palco foi o lugar onde pude ser eu mesma antes mesmo de o mundo lá fora permitir”, reflete a artista. Sua gestão na FETAC busca mudar a narrativa que associa corpos trans apenas à dor ou à marginalidade, substituindo-a por uma de sucesso, intelecto e capacidade de liderança técnica.
Questionada sobre como mantém a força diante de uma luta que, por vezes, exaure, Brenn recorda que o autocuidado é político. “Eu esqueço que eu tenho que ser resistente, eu esqueço que eu sou forte. É o momento em que eu me permito ser frágil, ser vulnerável, porque resistir é a nossa lei, é o que a gente faz diariamente. Ter esses momentos para não ter que se preocupar em resistir é o que me fortalece para voltar pronta para a batalha”, ensina.
O espelho das referências
Brenn divide suas referências em dois âmbitos: as figuras que estão na mídia, como Linn da Quebrada e Liniker, e as mulheres do seu território. Ela recorda que olhar para o corpo de Linn em 2017 a ajudou a entender o próprio processo de “desconstrução para se reconstruir”.
Mas é no seio familiar e regional que sua base se solidifica: “Tem as mulheres da minha família, minha mãe e minha vó, que são referências de resistência; e as mulheres maravilhosas da cultura, como Carla Martins, Rose Farias, Cláudia Toledo e tantas outras que atravessaram a minha vida e me ajudaram a construir essa persona que sou hoje”.
Para ela, essas conexões foram fundamentais quando tudo ainda parecia “uma praia deserta” e sem conteúdo, restando hoje um profundo sentimento de gratidão por existirem na mesma época.
Empreendedorismo e a geografia da resistência

Aos 31 anos, Murilo Augusto Farias do Nascimento Netto carrega um currículo de peso: é ativista de Direitos Humanos, acadêmico de Geografia na Ufac e CEO da M.A Marketing Digital. Sua transição, iniciada aos 22 anos, foi um passo de amadurecimento e coragem. “Foi um caminho de afirmação da minha identidade e de reivindicação do meu direito de existir com dignidade”, afirma.
Essa força, forjada na necessidade de enfrentar uma sociedade que ele descreve como ainda muito transfóbica, é o que alimenta sua visão estratégica nos negócios. Murilo não separa o CEO do homem trans; pelo contrário, entende que a sobrevivência o tornou um gestor melhor. “A força que precisei construir me tornou mais resiliente e estratégico. Ser trans me ensinou a lidar com conflitos, a negociar espaços e a não desistir diante das barreiras. Essa vivência fortalece tanto o Murilo empresário quanto o Murilo acadêmico”, pontua.
Além do mercado digital, Murilo utiliza sua trajetória para humanizar o atendimento a outras populações vulneráveis por meio da Associação das Mulheres do Acre Revolucionárias (AMAR), onde atua com pessoas que vivem com HIV/AIDS. Para ele, a interseccionalidade permite enxergar o indivíduo para além do diagnóstico. “Isso humaniza o atendimento, fortalece a escuta e torna a defesa de direitos mais real e efetiva”, explica o ativista, que compõe o Conselho Estadual LGBTQIA+ desde 2016.
Murilo aponta que, no Acre, a visibilidade ainda precisa se converter em dignidade básica. “O que adianta ter políticas públicas e não ter orçamento? Vemos isso no ambulatório transexualizador daqui, que existe, mas não tem os hormônios para a distribuição há um bom tempo”, critica o ativista. Para ele, a “geografia dos corpos trans” em Rio Branco ainda é marcada por territórios de medo e exclusão, onde a universidade e as redes de afeto surgem como raros espaços de resistência.
Um recado para o futuro
Neste 29 de janeiro, o recado de Murilo e Brenn é de urgência, mas também de esperança. Murilo aconselha aqueles que estão iniciando sua caminhada a respeitarem seu próprio tempo: “Sua identidade é legítima, sua existência importa e você merece viver com dignidade, respeito e, acima de tudo, felicidade”.
A visibilidade trans no Acre hoje tem rosto, tem voz e ocupa os postos de comando. Brenn e Murilo provam que, seja sob os holofotes do teatro ou à frente de uma empresa de tecnologia, a identidade trans é uma potência que não pode mais ser ignorada.








