“A leitura é uma fonte inesgotável de prazer, mas, por incrível que pareça, a quase totalidade não sente esta sede.” A reflexão de Carlos Drummond de Andrade segue atual em um tempo marcado pela pressa, pelo excesso de estímulos e pela disputa constante pela atenção. Na semana em que se celebra o Dia do Leitor, a frase ajuda a provocar uma pergunta simples: como manter o hábito de ler em meio a tantas distrações?
Em um cenário de excesso de informação, estímulos rápidos e disputa constante pela atenção, iniciativas que aproximam pessoas dos livros se tornaram fundamentais, não apenas para formar leitores, mas para criar comunidades.
Em Rio Branco, uma das respostas tem vindo de iniciativas coletivas, que transformam a leitura em experiência compartilhada. É o caso do Clube do Livro Novos Capítulos, criado em 2024, que reúne leitores interessados não apenas em concluir livros, mas em conversar sobre eles, trocar interpretações e reconstruir, aos poucos, o hábito da leitura.

Leia como encontro e reconstrução de hábito
Criador do clube, o jornalista e licenciado em Letras Aldeir Oliveira conta que sempre foi leitor, mas viu o costume ser interrompido durante a vida acadêmica. “A leitura na universidade deixa de ser recreativa e passa a ser uma leitura técnica e obrigatória. Eu passei anos tentando readquirir esse hábito”, lembra.
Sem encontrar um clube do qual pudesse participar, decidiu criar um.
“Comentei com alguns amigos, que também queriam reaver o hábito, e em abril de 2024 criamos o Clube do Livro Novos Capítulos.” A proposta inicial era simples: obras curtas, prazos largos e uma leitura que coubesse na rotina. “O maior desafio foi voltar a ler. Ler 250 páginas em 30 dias parecia tortura. Eu definia uma meta de 8 a 10 páginas por dia”, conta. “Mas era um desafio coletivo, e hoje, com quase 21 meses de existência, nós vencemos.”
O que muda quando a leitura é compartilhada
Entre os participantes está o jornalista Miguel França, leitor assíduo desde a adolescência. Para ele, os livros sempre foram uma forma de compreender o mundo e as pessoas. “Percebi que a leitura seria o caminho mais interessante para conhecer as pessoas e o mundo. Desde então, eu nunca mais parei.”
No clube, segundo Miguel, a experiência de leitura ganhou novas camadas. “Acredito que boas ideias podem estar soterradas em lugares inimagináveis”, afirma. Ler em grupo, segundo Miguel, ampliou o horizonte e o senso de pertencimento. “O Clube de Leitura proporcionou me divertir mais com os livros e enxergar as histórias de outras perspectivas. Às vezes esquecemos que outras pessoas pensam e que existem outras formas de interpretar.”
Entre as obras lidas no grupo, Frankenstein, de Mary Shelley, foi a que mais o marcou.
“Eu me identifiquei muito com o Monstro e com o Victor, mas isso a gente ignora. Identificar-se vem carregado de sentimentos conflitantes. Não é agradável, mas comprovar que estamos vivos e que temos semelhantes é ser transformado.”

Pausa, concentração e repertório cultural
Para Aldeir, ler hoje é um exercício de pausa diante dos estímulos rápidos do cotidiano. “É quando desligo o computador, coloco o celular no modo avião e foco apenas naquilo. É um descanso para o meu cérebro.” Ele também destaca o papel cultural da literatura. “Por meio dos livros nós podemos conhecer novas vozes, culturas e hábitos. Estar hoje no Mediterrâneo e amanhã na China rural.”
Importância social da leitura
A professora de Língua Portuguesa Amanda Gutierrez, mestra em Estudos Literários e doutoranda em Literatura Comparada, destaca que a leitura tem peso formativo em tempos de excesso de informação e velocidade.
“A leitura contribui para o desenvolvimento do letramento informacional, cujo combate à desinformação é essencial para a mobilização do pensamento complexo, crítico e autônomo”, explica.
Para ela, a literatura também coopera para a experiência da alteridade. “É uma ferramenta de humanização, pois permite acessar outras realidades geográficas, históricas ou emocionais.”
Amanda lembra que, para formar leitores, não se pode impor o hábito. “A leitura não pode assumir caráter obrigatório ou punitivo. Ela nasce da liberdade de escolha.” Escolas e famílias têm papel central nesse processo, especialmente ao disponibilizar ambientes letrados e exemplos, afirma.

Novos caminhos para o hábito de ler
Mesmo com a concorrência das telas, clubes de leitura, rodas literárias e comunidades digitais seguem criando espaços de partilha. No Novos Capítulos, o livro do mês é definido por sorteio e as regras de indicação mudam a cada ciclo. Em 2026, o grupo iniciou um projeto de leituras ao redor do mundo. “O primeiro título será do leste asiático e Oceania”, conta Aldeir.








