A proteína virou selo de superioridade alimentar. Basta aparecer no rótulo para que qualquer produto pareça automaticamente mais saudável. Se tem proteína adicionada, parece melhor.
Recentemente encontrei até achocolatado com proteína na prateleira do supermercado. Um produto tradicionalmente rico em açúcar agora se apresenta como aliado da saúde apenas porque ganhou alguns gramas extras do nutriente. Isso diz mais sobre marketing do que sobre necessidade metabólica.
A proteína é essencial. Participa da construção muscular, da produção hormonal, da imunidade e da manutenção de tecidos. Em um país com altos índices de sobrepeso e doenças metabólicas, preservar massa muscular é uma estratégia de saúde, não apenas estética.
O problema começa quando um nutriente essencial passa a ser tratado como solução universal.
Proteína e rim: o que é fato e o que é exagero
Existe a ideia de que consumir muita proteína “estraga os rins”. Essa afirmação, isolada, não é tecnicamente correta.
Em indivíduos com função renal normal, não há evidência robusta de que uma ingestão moderadamente elevada de proteína cause dano renal. O que ocorre é um aumento temporário no trabalho dos rins para eliminar os resíduos do metabolismo proteico. Trata-se de adaptação fisiológica, não de lesão.
O cenário muda quando há doença renal pré-existente, hipertensão avançada ou diabetes mal controlado. Nesses casos, o excesso pode agravar um quadro já estabelecido. O risco, portanto, não está na proteína em si, mas no contexto clínico.
Generalizações vendem manchetes. Contexto constrói responsabilidade.
Mais proteína não significa mais músculo
Outro equívoco comum é acreditar que quanto mais proteína se consome, mais músculo será construído.
O corpo possui um limite para a síntese proteica muscular. Para a maioria das pessoas fisicamente ativas, algo entre 1,2 e 1,6 gramas de proteína por quilo de peso corporal ao dia costuma ser suficiente para manutenção ou ganho de massa muscular, quando associado ao treino de força.
Acima disso, o ganho não aumenta proporcionalmente. O excedente será utilizado como energia ou armazenado.
Dobrar a proteína não dobra o resultado.
Entre o medo e o modismo
A proteína não precisa ser temida nem idolatrada. Precisa ser ajustada.
Quando transformamos nutrientes em heróis ou vilões, perdemos a capacidade de análise crítica e abrimos espaço para exageros que pouco têm a ver com fisiologia real.
Exagero não substitui ciência.
Medo não substitui critério.
Nutrição responsável não trabalha com extremos. Trabalha com adequação.
Ir além da caloria é justamente isso: sair da polarização e entrar na estratégia.