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Cientistas testam bactéria do solo que pode “comer” células do câncer

Pesquisa ainda experimental tenta fazer bactéria Clostridium sporogenes virar uma ferramenta para comer tumores e combater o câncer.

A Gazeta do Acre por A Gazeta do Acre
28/02/2026 - 15:45
Foto: Alllex/ Getty Images

Foto: Alllex/ Getty Images

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Uma equipe da University of Waterloo, no Canadá, está desenvolvendo uma estratégia experimental que transforma uma bactéria comum do solo em uma aliada no combate ao câncer.

A proposta é fazer com que a bactéria se instale dentro do tumor, destrua a área mais profunda da massa e, ao mesmo tempo, tenha um mecanismo de controle que impeça riscos ao restante do organismo.

A pesquisa ainda está em fase inicial, mas é uma junção de engenharia genética, biologia sintética e modelagem matemática para tentar resolver um problema que, na verdade, é antigo: como chegar ao “coração” do tumor sem causar danos ao tecido saudável.

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Por que usar uma bactéria contra o câncer?

Tumores que já estão sólidos costumam ter regiões internas com pouquíssimo oxigênio. Isso acontece porque o crescimento acelerado das células cancerígenas dificulta a chegada de sangue no centro da massa.

Porém, esse detalhe que ajuda o tumor a sobreviver pode se tornar uma fraqueza. Os pesquisadores escolheram a bactéria Clostridium sporogenes justamente porque ela só se desenvolve em ambientes sem oxigênio.

Na teoria, ao ser introduzida no corpo, a bactéria permaneceria dormente até encontrar o interior do tumor. Ali, começaria a se multiplicar, consumir nutrientes da região e conseguiria “comer” a massa do tumor de dentro para fora, tendo como resultado o combate ao câncer.

Já na prática, os cientistas encontraram um problema: nas bordas do tumor, onde há maior contato com vasos sanguíneos, a concentração de oxigênio é mais alta. Por isso, quando o microrganismo chegava a essas áreas, não resistia e morria. Com isso, parte do tecido cancerígeno podia permanecer viva, abrindo espaço para que o tumor voltasse a crescer.

Modificação do gene noxA

Para ampliar o alcance da bactéria, os cientistas inseriram nela um gene chamado noxA, vindo da bactéria Clostridium aminovalericum. Esse gene ajuda o microrganismo a lidar melhor com o oxigênio.

Com essa alteração, a bactéria passou a tolerar níveis mais altos de oxigênio, o que pode permitir que ela avance além do centro do tumor. Os resultados dessa etapa foram publicados em 11 de outubro de 2023 na revista científica Biotechnology Journal.

Sistema de segurança para a bactéria

Depois de deixar os microrganismos mais resistentes ao oxigênio, os cientistas perceberam que precisavam de um controle, porque eles não queriam que a bactéria ficasse forte o tempo todo — só quando estivesse dentro do tumor.

Por isso, os pesquisadores criaram um mecanismo genético que funciona como uma espécie de sensor de quantidade. O sistema foi descrito em 2025 na revista ACS Synthetic Biology e usa uma estratégia inspirada na bactéria Staphylococcus aureus.

Na prática, o sistema de segurança funciona da seguinte forma: quando poucos microrganismos estão espalhados pelo corpo, o gene que dá resistência ao oxigênio fica desligado; quando muitas bactérias estão concentradas no mesmo lugar — como acontece dentro do tumor — o gene é ativado.

Próximos passos da pesquisa

Nos experimentos de laboratório, os pesquisadores comprovaram que a bactéria pode ser modificada para suportar melhor o oxigênio e que o sistema de ativação genética só funciona quando há uma alta concentração de microrganismos.

Agora, a equipe trabalha para combinar as duas estratégias — resistência ao oxigênio e ativação controlada — em uma única versão da bactéria. Depois disso, devem começar os testes pré-clínicos em modelos tumorais.

Se funcionar como planejado, a bactéria poderá sobreviver tempo suficiente para eliminar completamente o tumor e, ao mesmo tempo, perder força ao sair do ambiente com pouco oxigênio, funcionando como um mecanismo natural de contenção.

A técnica está longe de chegar aos hospitais, mas representa uma linha de pesquisa diferente das terapias tradicionais. Em vez de atacar diretamente as células cancerígenas com drogas ou estimular o sistema imunológico, a proposta é transformar uma bactéria em uma ferramenta programada para atuar só onde o tumor cria as condições ideais.

Por: Metrópoles

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