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PEC do fim da escala 6×1: entenda os próximos passos na Câmara

Hugo Motta destravou o tema ao enviar proposta à CCJ; mudanças na Constituição têm rito longo e exigem muitos votos

A Gazeta do Acre por A Gazeta do Acre
10/02/2026 - 11:04
Foto: Ramiro Lucena/Camâra dos Deputados/Reprodução

Foto: Ramiro Lucena/Camâra dos Deputados/Reprodução

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A Câmara dos Deputados se prepara para discutir Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de seis dias de trabalho para um de descanso, conhecida como 6×1.

Apresentado pela deputada Erika Hilton (PSol-SP) em fevereiro de 2025, o texto foi encaminhado nessa segunda-feira (9/2) à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) pelo presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB). A proposta se juntará a outra, mais antiga, de autoria de Reginaldo Lopes (PT-MG).

O fim da escala 6×1 é uma das bandeiras que devem ganhar destaque na provável campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Popular, o tema mobilizou mais de 1,5 milhão de assinaturas em um abaixo-assinado do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que defende a redução da jornada máxima semanal.

Em pronunciamento no Dia do Trabalhador, em 2025, Lula afirmou ser necessário “aprofundar” o debate sobre novas regras para as escalas de trabalho. Neste mês, em mensagem enviada ao Congresso, o petista classificou o tema como o “próximo desafio” do Palácio do Planalto.

A PEC de Erika Hilton propõe reduzir a jornada máxima para 36 horas semanais, distribuídas em quatro dias de trabalho. Atualmente, a Constituição fixa o limite em 44 horas semanais, sem definir a divisão por dias — brecha que permite a adoção de escalas como a 6×1.

Com a decisão de Motta, o texto poderá, enfim, começar a tramitar na Câmara. Propostas de Emenda à Constituição, porém, enfrentam um rito mais longo até a aprovação final no plenário.

A primeira etapa é a análise pela CCJ, que ainda não retomou os trabalhos em 2026. A expectativa entre deputados é que a comissão seja reaberta ainda nesta semana. O comando do colegiado deve ficar com Leur Lomanto Júnior (União-BA), indicado pelo União Brasil.

Na CCJ, a discussão se restringe aos aspectos formais e constitucionais da proposta. O colegiado não pode alterar o conteúdo do texto, apenas avaliar sua compatibilidade com a Constituição.

Ao Metrópoles o provável presidente da comissão afirmou que ainda não conversou com Hugo Motta sobre o andamento da análise. Segundo Lomanto Júnior, o tema será tratado após sua eleição formal para o comando da CCJ.

Superada essa etapa, a PEC segue para uma comissão especial, criada especificamente para discutir o conteúdo da proposta. É nesse colegiado que mudanças podem ser feitas no texto.
Depois, a proposta pode ser enviada ao plenário da Câmara. Para ser aprovado, o texto precisa reunir ao menos 308 votos favoráveis, em dois turnos de votação.

Para entrar em vigor, a PEC também precisará ser aprovada pelo Senado. Por lá, a aprovação também exige um alto número de votos: ao menos 41 favoráveis, em dois turnos. Diferentemente de outros projetos, uma PEC não depende de sanção presidencial: cabe ao próprio Congresso promulgar a emenda.

O caminho da PEC

  • Na Câmara, Propostas de Emenda à Constituição começam a ser discutidas na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).
  • Primeiro passo, a CCJ analisa apenas se a PEC está de acordo com a Constituição e não pode modificar o texto. Na prática, o colegiado dá sinal verde para que a proposta continue a ser analisada.
  • Se for aprovada pela CCJ, a Câmara cria uma comissão especial para discutir apenas a PEC. É nesse colegiado que o conteúdo do texto pode ser alterado.
  • Após a análise e possíveis alterações pela comissão especial, a proposta é enviada para a análise do plenário. Por lá, o conjunto dos deputados decide se aprova ou não a mudança na Constituição.
  • São necessários, no mínimo, 308 votos para aprovar uma emenda à Constituição na Câmara. A votação ocorre em dois turnos.
  • Após todas essas etapas, a PEC pode ser enviada para a análise dos senadores. No Senado, o texto também é submetido à CCJ da Casa e, depois, é discutido no plenário. Para ser aprovado por lá, são necessários, no mínimo, 41 votos.
  • PECs não são sancionadas pelo presidente da República. Cabe ao próprio Congresso promulgar — ato que torna o texto parte da Constituição.

Articulação do governo

O governo tem escalado os ministros Guilherme Boulos (Secretaria-Geral) e Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais) para destravar as discussões no Congresso. O Planalto vinha trabalhando com a possibilidade de avançar no tema por meio de um projeto de lei, cuja aprovação é mais simples.

Enquanto a PEC exige dois turnos de votação e 308 votos no plenário, projetos de lei podem ser aprovados simbolicamente ou com a maioria dos votos dos presentes à sessão.

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Na avaliação de líderes governistas, o gesto de Motta sinaliza disposição da Câmara para discutir uma pauta considerada prioritária para a gestão Lula. Mas não está descartado, segundo esses parlamentares, o envio de um projeto alinhado à proposta defendida pelo Planalto.

Há também a avaliação de que, caso a PEC chegue à comissão especial, o colegiado poderá apresentar um novo texto, buscando conciliar as demandas de trabalhadores e do setor empresarial.

Autores das propostas, Erika Hilton e Reginaldo Lopes afirmaram ao Metrópoles que devem se encontrar com Hugo Motta para discutir o rito de análise do texto.

Erika sinalizou que conversou brevemente com Motta sobre o tema na última semana e que o paraibano ainda deve convidá-la para uma nova reunião. Lopes disse que deve conversar com Hugo Motta nesta terça-feira (10/2). Além deles, o ministro Guilherme Boulos também deve se reunir com o presidente da Câmara nesta semana.

“Achamos que essa iniciativa do presidente Hugo Motta é muito positiva. Demonstra o compromisso dele, do comando da Câmara, em colocar para votar este semestre o fim da escala 6×1. Conversei com o presidente Lula e vamos chamar o presidente Hugo Motta para uma reunião na quinta-feira para discutirmos os melhores caminhos do trâmite do fim da escala 6×1”, disse Boulos.

Popular, mas controverso

Apesar da popularidade, o fim da escala 6×1 não é consenso no Congresso. Parlamentares ligados ao setor empresarial têm alertado para possíveis impactos sobre empreendedores e defendem a adoção de regras de transição e escalonamento para a mudança da jornada.

Ao anunciar que destravou a proposta, Motta afirmou que pretende ouvir os setores envolvidos antes de avançar na discussão. A escala 6×1 é comum em áreas como restaurantes, supermercados, saúde e serviços em geral. Nesse modelo, o trabalhador com carteira assinada atua seis dias consecutivos e tem apenas um dia de descanso.

O debate sobre a redução da jornada de trabalho não é novo no Legislativo. Nos últimos anos, diversas propostas foram discutidas, mas nenhuma chegou à votação final no plenário.

Em 2009, após quase duas décadas de debates, uma comissão especial da Câmara aprovou uma PEC que reduzia a jornada máxima para 40 horas semanais. Embora liberado para votação, o texto nunca entrou na pauta e acabou arquivado em 2023.

No ano passado, a CCJ do Senado aprovou uma PEC que reduzia a jornada de 44 para 36 horas semanais, com dois dias de descanso. A proposta, no entanto, não avançou ao plenário.

Por: Metrópoles

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