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Cineasta acreano aposta no audiovisual negro para fortalecer identidade e memória na Amazônia e estreia novo curta

Cineasta acreano aposta no audiovisual negro para fortalecer identidade e memória na Amazônia e estreia novo curta

O audiovisual como ferramenta de identidade, mobilização coletiva e preservação histórica tem guiado a trajetória do cineasta acreano Francisco Teddy Falcão. Em um estado marcado por lutas socioambientais e resistência cultural, ele desenvolve produções autorais, iniciativas de formação e projetos voltados à valorização da presença negra na Amazônia.

Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Falcão integra o Cineclube Opiniões, que atua há quase 16 anos, e também compõe o Conselho Nacional de Cineclubes. A aproximação com o cinema começou no movimento cineclubista, espaço em que aprofundou estudos sobre linguagem e técnica antes de iniciar as próprias produções.

O novo curta-metragem de Francisco Teddy Falcão, Minha Pele Preta em Terra Verde, estreia nesta sexta-feira, 27, na Filmoteca Acreana.

Narrativas negras e memória amazônica

Os trabalhos do cineasta priorizam narrativas negras e incluem também conteúdos voltados ao público infantil. Entre as produções estão os curtas Francisco (2017) e Um Negro de Cor (2017), a animação Como eu descobri minha cor (2024) e o documentário Amazônia em Corpo Preto (2026).

As obras abordam temas como luto, violência, pertencimento, ancestralidade e reconstrução da identidade negra na Amazônia. Falcão também é idealizador da websérie antirracista Rio Branco Negra, projeto que coloca no centro as vozes e vivências negras da capital acreana e amplia o debate sobre herança cultural e justiça social.

A proposta questiona quem historicamente ocupou os espaços de direção, roteiro e decisão dentro da indústria cultural, ao mesmo tempo em que busca ampliar a representatividade no audiovisual local.

Desafios estruturais no Acre

A produção audiovisual no Acre enfrenta limitações estruturais, como escassez de recursos, ausência de cursos de capacitação e dificuldades de acesso a editais. Segundo o cineasta, em muitos projetos é necessário investimento próprio para aquisição de equipamentos e pagamento de equipe.

“Aqui, infelizmente, não temos apoio e incentivo nessa área. Os recursos são muito difíceis. Para os processos criativos, por exemplo, não há cursos de capacitação, então precisamos aproveitar oportunidades vindas de fora e os cursos disponíveis na internet”, afirmou.

De acordo com ele, quando há financiamento público, os valores costumam cobrir apenas etapas específicas da produção, como a pós-produção. “Eu me sinto uma pessoa feliz e realizada toda vez que apresento um projeto pronto. É muito importante pra mim. Os desafios se tornam bem pequenos diante da criação desses projetos”, declarou.

Formação e preservação do acervo

Além da produção autoral, Falcão atua na formação de novos realizadores por meio de oficinas e cursos. Entre as iniciativas está o curso O FilmEscola – Por um Cinema Possível, voltado à capacitação em todas as etapas da produção audiovisual, com foco em alternativas adaptadas à realidade local.

O cineasta também desenvolve um sistema multiplataforma para digitalização e preservação do acervo audiovisual acreano, com o objetivo de ampliar o acesso público e garantir a conservação da memória cultural do estado.

A atuação como formador se refletiu na animação O Menino e o Rio (2025), produzida por estudantes do curso técnico de audiovisual em Rio Branco. A obra representou o Acre na 5ª edição da Semana Nacional da Educação Profissional e Tecnológica, realizada em Brasília, em 2025. Inspirado em memórias de infância às margens do Rio Acre, o curta retrata a relação entre pai e filho e aborda as cheias do rio e as transformações urbanas da capital.

Com informações do Comitê Chico Mendes.

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