A recente confirmação de dois casos do vírus Nipah na Índia acendeu um alerta em diversos países. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), todas as 190 pessoas que tiveram contato direto com os infectados foram testadas e liberadas, mas a possibilidade de uma contaminação em massa assustou a comunidade internacional.
Essa não é a primeira vez que o Nipah chama atenção. Desde 2001, Índia e Bangladesh relatam surtos em frequência quase anual. Segundo a infectologista Priscilla Sawada, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia, o risco pandêmico desse vírus é baixo.
“Trata-se de uma doença zoonótica, cuja principal fonte de infecção são os morcegos frutíferos do gênero Pteropus, espécies que não existem no Brasil, estando restritas a Ásia, Oceania e parte do leste da África”, explica.
A alta letalidade desse agente infeccioso — entre 40% e 75% — limita sua capacidade de disseminação sustentada. O contágio pode ocorrer com o consumo de frutas que foram contaminadas por animais doentes ou a partir do contato muito próximo com pessoas e animais infectados.
Não há vacina ou tratamento específico para a doença, o que a torna mais preocupante. A enfermidade causa febre, infecções respiratórias agudas e inflamações no cérebro. Além disso, um a cada cinco infectados pode ter sequelas neurológicas de longo prazo, segundo a OMS.
De olho no cenário global
Apesar das preocupações com o Nipah, ele não é a única doença em que os infectologistas estão de olho para evitar surtos ou pandemias. Em 2026, o cenário global promete ser marcado tanto pela circulação antecipada de vírus respiratórios humanos, como a variante do Influenza A conhecida como gripe K, quanto pela presença cada vez mais constante de vírus da gripe aviária, como os subtipos H5N1 e H5N5. No Brasil, a atenção também se volta à expansão de arboviroses e ao avanço da sífilis.
No final de 2025, autoridades de saúde alertaram para o aumento de casos na Europa e nos Estados Unidos da gripe K, cujos primeiros casos foram confirmados no Brasil em meados de dezembro.
Mas não se trata de uma nova doença: o agente causador é o vírus da gripe comum, mais especificamente a variante H3N2 do subclado K, que deu o “apelido” à doença. A mudança de subclado indica uma mutação sutil na estrutura viral, o que pode ter potencializado levemente a capacidade de transmissão da gripe, segundo análises preliminares.
“Os vírus Influenza têm uma capacidade de sofrer mutações naturais regularmente. O que colocou esse subclado em destaque foi sua circulação de forma precoce e muito acelerada no Hemisfério Norte, antes do pico do inverno”, analisa a infectologista Maria Daniela Bergamasco, coordenadora do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar do Einstein Hospital Israelita.
Apesar de isso reforçar a importância de medidas preventivas, como a vacinação, não é preciso gerar alarde. “Essa não é uma variante especialmente mais agressiva, ela causa apenas sintomas comuns da síndrome gripal de Influenza A H3N2”, esclarece Bergamasco.
A Influenza A costuma provocar febre alta, tosse e congestão nasal. Ela tende a ser mais grave entre grupos de risco, como idosos, crianças menores de 5 anos, pessoas transplantadas e com doenças pulmonares crônicas.
Quanto à prevenção, medidas universais de higiene que se tornaram populares durante a pandemia de Covid-19 continuam válidas para evitar infecções respiratórias, incluindo o uso de máscara, especialmente em quem tem sintomas, e a higiene constante das mãos.
“A vacinação segue como ferramenta central de prevenção. Embora o imunizante atual não seja adaptado para este subclado específico, ele oferece uma proteção relevante. Além disso, é uma doença para a qual temos muitos tratamentos disponíveis”, afirma a infectologista. “Pacientes devem buscar atendimento médico diante de sintomas para a realização de testes virais que permitam acompanhar a situação epidemiológica e fazer o tratamento”.
Gripe aviária no radar
Outras infecções virais respiratórias estão em permanente observação. Nos últimos dois anos, as formas de gripe aviária H5N1 e H5N5 causaram surtos em aves selvagens por todo o mundo. Foram registrados casos em diversas espécies de mamíferos, inclusive humanos que tiveram contato direto com animais contaminados.
A boa notícia é que não há registro de contaminação entre pessoas. “O risco de transmissão entre humanos permanece baixo”, assegura Maria Daniela Bergamasco. Ainda assim, o agente infeccioso merece atenção constante. “Como outros vírus influenza, essas variantes acumulam mutações ao longo do tempo. O maior risco atual é de fato associado à gripe K, mas os influenzas aviários demandam vigilância contínua”, frisa a médica do Einstein.
Arboviroses em expansão
Outro grupo de doenças com crescimento recente são as arboviroses, doenças virais transmitidas por mosquitos. Embora velhas conhecidas como a dengue e a febre amarela ainda sejam responsáveis pelos quadros mais graves, há novas enfermidades ganhando protagonismo, como a febre oropouche.
Desde 2023, carregada pelo mosquito maruim, a doença saiu da regão amazônica, onde era endêmica, e se espalhou pelo país. Em 2024, o Ministério da Saúde registrou duas mortes pela condição. “Ela não tem uma vacina, então a prevenção envolve evitar a exposição à picada do maruim, com uso de repelentes e controle de sua reprodução, que ocorre nos mesmos contextos da arbovirose mais conhecida, a dengue”, detalha Bergamasco.
Falando em dengue, o imunizante anunciado no final de 2025 pelo Instituto Butantan, em São Paulo, promete começar a mudar o cenário da doença a partir deste ano, ao lado da vacina Qdenga, aplicada desde 2024. Contudo, até que a vacinação chegue à maioria da população, evitar a reprodução do mosquito Aedes aegypti ainda é a melhor forma de diminuir os casos de dengue, cujo pico ocorre logo no começo do ano.
“O verão é uma época propícia para a reprodução dos mosquitos, por isso é essencial estar de olho neles. Todas as arboviroses podem ser muito preocupantes, mas a dengue é uma das mais frequentes a levar a casos graves. É fundamental não descuidarmos da prevenção neste ano, já que os casos têm quebrado recordes sucessivos nos últimos verões”, alerta a infectologista.
Sífilis volta a ameaçar
Não são apenas enfermidades virais que merecem acompanhamento. Uma doença bacteriana, a sífilis, tem crescido de maneira expressiva no Brasil e no mundo. Ela integra o grupo das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e quebrou recordes de casos nos últimos anos. Em 2024, foram 256 mil registros, segundo o painel epidemiológico do Ministério da Saúde, e dados preliminares indicam que em 2025 podem ter sido mais.
O avanço da IST ocorre por múltiplos fatores, como não usar preservativo e a falta de testagem. Não há indícios de resistência bacteriana ao tratamento com benzetacil, que segue disponível no Sistema Único de Saúde (SUS). “A chave está mesmo na conscientização”, afirma Bergamasco. Além disso, estratégias adicionais de prevenção combinada estão em avaliação, como a DoxiPEP, uma profilaxia pós-exposição para infecções bacterianas, mas que ainda depende de dados para definição de uso amplo.
Por: Metrópoles