Eventos climáticos adversos e incertezas sobre a próxima safra devem voltar a pressionar os preços dos alimentos em 2026, reacendendo o alerta inflacionário. Depois de 2025 marcado por forte alta dos preços, que levou o governo a adotar medidas para conter a inflação dos alimentos, o cenário para este ano é novamente de cautela.
O fenômeno de La Niña formado na primavera do ano passado foi fraco, teve impacto limitado no início do verão de 2026 e deve perder força este mês. Com isso, os modelos climáticos passaram a indicar, com maior consistência, a transição para um novo El Niño ao longo de 2026.
Segundo o Climatempo, o aquecimento do Pacífico Equatorial deve começar ainda no primeiro semestre, com sinais já a partir de março. A formação do El Niño é esperada entre o fim do outono e o início do inverno, com possibilidade de evolução mais rápida, semelhante ao episódio de 2023.
O fenômeno provoca impactos distintos conforme a região. No Sul do Brasil, causa chuvas intensas e frequentes, enquanto no Norte e Nordeste provoca seca e redução das precipitações. O fenômeno eleva as temperaturas e afeta a agricultura, gerando inundações no Sul e escassez de água no Norte.
As projeções indicam, no mínimo, um evento de intensidade moderada. Dados recentes da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) apontam maior probabilidade de um El Niño moderado ou mais intenso entre agosto e outubro, com pico histórico entre novembro e janeiro.
Bruno Imaizumi, economista da 4intelligence, projeta que os efeitos do El Niño sobre a inflação de alimentos no Brasil devem se intensificar a partir do meio do ano. Segundo ele, o impacto estimado do fenômeno na inflação deste ano é de 0,8 ponto percentual. “Hoje, a gente se encontra num cenário de La Niña, que costuma ter menos impactos nos alimentos produzidos internamente. A perspectiva é migrar desse cenário neutro para o El Niño a partir do segundo semestre, quando ele começa a afetar mais a equação de alimentos”, explica Imaizumi.
O economista ressalta que, embora a inflação de alimentos no domicílio tenha ficado abaixo da média histórica em 2025, com variação de 1,4%, o nível de preços permanece “incômodo” desde o início da pandemia da covid-19. “Não conseguimos fazer com que os preços regressassem aos patamares pré-pandemia. Então, qualquer aumento hoje acaba sendo sentido de forma mais intensa. Do 1,4% registrado em 2025, somente 0,14 ponto percentual veio do El Niño”, acrescenta.
Para 2026, ele observa que o impacto do fenômeno climático não será maior por concentrar-se no segundo semestre, com parte dos efeitos possivelmente se estendendo para 2027. “Se o El Niño se concretizar este ano, parte desses efeitos vai ser postergada para 2027, aparecendo mais nesse período”, afirma.
IPCA-15
A prévia da inflação de janeiro, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA-15), indicou aceleração dos preços ao interromper uma sequência de sete meses consecutivos de queda. O grupo alimentação e bebidas registrou alta de 0,31%, puxado principalmente pela alimentação no domicílio, que avançou 0,21%.
Segundo André Braz, coordenador dos Índices de Preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), o movimento, por ora, não indica uma tendência estrutural. “Essa alta ficou muito concentrada em produtos sazonais, típicos do verão, como hortaliças, legumes e frutas. É algo mais temporário do que um movimento que vá permanecer por mais tempo”, explica. Ainda assim, ele pondera que o cenário pode mudar com a evolução das condições climáticas ao longo do ano.
A atenção se volta especialmente para a possibilidade de atuação do fenômeno El Niño a partir do segundo trimestre de 2026. “Ele pode afetar a nossa agricultura, mas ainda é cedo para sinalizar a intensidade e quais culturas seriam mais prejudicadas. Sempre que esses fenômenos são anunciados, algum prejuízo eles acabam trazendo”, aponta.
Safra menor
Estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que a safra brasileira de cereais, leguminosas e oleaginosas deve recuar 3% em relação ao recorde projetado para 2025. Segundo Carlos Barradas, gerente de levantamentos agrícolas do IBGE, a queda projetada ocorre principalmente porque a base de comparação deste ano é excepcionalmente alta. “As condições climáticas favoreceram fortemente o desempenho tanto da primeira quanto da segunda safra de 2025, um cenário que dificilmente se repetirá em 2026.”
Eventos climáticos cada vez mais frequentes e uma possível redução da produção agrícola colocam pressão adicional sobre os preços dos alimentos, de acordo com André Braz, da FGV/Ibre. Segundo ele, a mudança no padrão climático já representa um desafio estrutural para a produção agropecuária brasileira e pode ter efeitos tanto sobre a inflação quanto sobre o crescimento econômico.
“Os eventos climáticos são hoje a maior preocupação, porque estão ficando mais frequentes. Até o ano 2000, eles ocorriam em intervalos de sete ou oito anos. Agora, acontecem a cada dois ou três anos”, afirma o pesquisador.
De acordo com Braz, essas ocorrências alteram o volume e a distribuição das chuvas, provocando excessos em algumas regiões e escassez em outras, o que compromete a produção. “Isso mexe com a oferta de alimentos, promove aumento de preços e também afeta o PIB, já que a agricultura tem peso relevante na economia brasileira”, diz.
O impacto, segundo ele, não se limita ao mercado interno. “Como o Brasil é um grande produtor mundial de alimentos, a perda de safra aqui influencia tanto os preços domésticos quanto os internacionais”, ressalta.
Entre as culturas mais sensíveis ao clima, o economista cita o café, cuja produção é impactada por eventos extremos e tem ciclo bianual, o que prolonga os efeitos sobre os preços. “Além do café, soja, milho, trigo, arroz e feijão merecem atenção”, elenca. Segundo ele, até mesmo o preço das carnes pode ser afetado. “O gado no Brasil é criado a pasto. Se não chove, a grama não cresce, o custo aumenta e isso acaba pressionando o preço da carne.”
Medidas do governo
De 2024 ao início de 2025, os preços dos alimentos registraram forte alta, pressionando a inflação e afetando principalmente carnes, arroz, feijão, leite e hortaliças. O aumento foi impulsionado por choques climáticos, redução da oferta e valorização do dólar, que favoreceu as exportações e diminuiu a disponibilidade de produtos no mercado interno.
Para conter os preços, o governo federal lançou, em março passado, um pacote de medidas voltadas a ampliar a oferta e reduzir custos. Entre elas, eliminou tarifas de importação de itens essenciais, como carne, café, açúcar, milho, azeite, sardinha, biscoitos e massas, reforçou estoques reguladores da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), incentivou a produção via Plano Safra e negociou com estados a redução do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre produtos básicos.
O governo ainda firmou parcerias com o setor privado para ampliar a concorrência e tornar as ofertas mais competitivas. Especialistas, no entanto, apontaram que essas ações teriam impacto limitado sem reformas estruturais na produção e na distribuição de alimentos.
Na avaliação de André Braz, o pacote do Executivo teve caráter pontual. “Foram paliativas. As soluções mais eficazes são de médio e longo prazo”, afirma. Ele defende investimentos em logística, com maior uso do transporte fluvial, ferroviário e da cabotagem, além de estímulos à tecnologia agrícola. “Precisamos de sementes mais resistentes, subsídios a fertilizantes para pequenos produtores e mais assistência técnica. Isso permite aumentar a produção sem ampliar a área plantada.”
Sobre o impacto do El Niño na inflação de alimentos em 2026, o pesquisador diz que ainda não é possível fazer uma projeção precisa, mas aponta um cenário de cautela. “No ano passado, a alimentação subiu apenas 1,4%, bem abaixo da inflação geral. Para 2026, diante dos riscos climáticos, estimamos algo em torno de 4% a 4,5%”, afirma. Mesmo assim, a expectativa do FGV Ibre é de desaceleração do IPCA. “Projetamos inflação de 3,8%, abaixo do ano passado, com preços monitorados e serviços subindo menos.”
Ele ressalta, no entanto, que a inflação de alimentos tem impacto social mais profundo. “A população brasileira é muito desigual, e muita gente gasta praticamente tudo o que ganha com alimentação. Por isso, é fundamental manter esses preços controlados”, afirma. “Mas, quando há problema de safra, é um choque de oferta. Se não tem produto, o preço sobe, e não há política monetária capaz de resolver isso.”
Por Correio Brasiliense