“Espero provocar, antes de tudo, deslocamento. Que o público se pergunte: Quem são os negros da Amazônia?” A afirmação é do diretor Teddy Falcão sobre o curta Minha Pele Preta em Terra Verde, que será exibido no sábado, 28, às 17h, na Filmoteca Acreana, em Rio Branco. Após a sessão, o público poderá participar de um debate com o realizador, dentro da programação da Sessão Curta, com classificação livre.
O filme apresenta a trajetória de Pio, personagem que busca compreender sua identidade negra em uma Amazônia reconhecida majoritariamente pela presença indígena. A narrativa se constrói a partir de memórias e diálogos com o amigo Cecílio, jornalista ribeirinho engajado em contar histórias do povo negro amazônico.

Processo criativo
Segundo Teddy Falcão, o projeto nasceu de uma inquietação pessoal ligada à experiência de crescer na Amazônia em um território constantemente reconhecido como indígena, mas onde a presença negra é pouco narrada.
“O processo nasceu de uma inquietação pessoal: crescer na Amazônia, um território constantemente reconhecido como indígena, mas onde a presença negra é pouco narrada. O roteiro surgiu a partir de memórias, conversas reais, escutas e silêncios. Pio não é apenas um personagem, ele é atravessado por vivências coletivas”, afirma.
Sobre a escrita, o diretor afirma que o roteiro foi construído em diálogo com a realidade amazônica contemporânea, combinando intimidade e contexto histórico. Segundo ele, o processo funcionou como um espaço de escuta, com menos respostas prontas e mais perguntas abertas.
Nas filmagens, Falcão relata que buscou uma estética sensível e orgânica, tratando a paisagem amazônica não apenas como cenário, mas como personagem. A proposta foi trabalhar com uma câmera que observa, acompanha os silêncios e valoriza elementos como pele, textura, água e o verde da floresta, reforçando visualmente o tensionamento entre identidade negra e território amazônico.

Reflexões
Ao falar sobre o impacto esperado no público, o diretor afirma: “O filme convida à ampliação do olhar. A Amazônia não é uma identidade única, ela é múltipla. Existe negritude amazônica, existe memória negra ribeirinha, existe ancestralidade preta na floresta.”
Ele também ressalta o desejo de reconhecimento:
“Também desejo que pessoas negras amazônicas se reconheçam. Que sintam pertencimento. Que percebam que sua existência é legítima, histórica e política.”

Cinema e identidade
Para o cineasta, o audiovisual exerce papel central na construção de imaginários, ao influenciar a forma como identidades são percebidas socialmente. Segundo ele, quando uma identidade não aparece na tela, há o risco de que seja vista como inexistente, por outro lado, quando surge de maneira estereotipada, acaba reduzida e limitada em sua complexidade.
Ele acrescenta que “o cinema pode fortalecer identidades ao: registrar memórias invisibilizadas, produzir novas imagens de pertencimento; romper narrativas coloniais, criar referências positivas, construir autoestima coletiva”. E conclui: “Especialmente para populações negras na Amazônia, o cinema é ferramenta de afirmação histórica. Ele documenta, provoca e reescreve o que foi silenciado. Cinema não é apenas entretenimento, é disputa de narrativa. E disputar narrativa é disputar futuro.”
A sessão é realizada pela Saturno (arte, produção e corpo) e pelo Cineclube Opiniões, com apoio da Biblioteca Pública Adonay Barbosa dos Santos. Após a exibição, o debate com o diretor integra a proposta de discutir representatividade e cinema negro na região.
Minha pele preta em terra verde









