O caso envolvendo o professor Mauro Cesar Rocha, conduzido à delegacia na última segunda-feira (23) após supostas falas homofóbicas durante assembleia docente na Universidade Federal do Acre (Ufac), ganhou novos desdobramentos. A GAZETA teve acesso a relatos de estudantes do curso de Medicina Veterinária que apontam um histórico de episódios considerados inadequados no ambiente acadêmico.
Segundo os relatos, as situações incluem desde afirmações consideradas controversas durante aulas até conflitos com estudantes e professores ao longo dos últimos anos.
Segundo relatos de uma estudante que cursou a disciplina de Sociologia Rural com o docente, em 2021, as aulas eram frequentemente desviadas do conteúdo programático. A aluna afirma que Rocha utilizava o espaço acadêmico para sustentar que a Covid-19 seria uma “arma da China” e que o planeta Terra seria “coberto por um plasma”, sugerindo teses negacionistas sobre o formato do globo.
Entenda o caso: Professor da Ufac é levado à delegacia após falas homofóbicas durante assembleia docente
Além disso, segundo estudantes, o professor se recusava a utilizar as plataformas oficiais de ensino remoto da universidade. “Ele queria que a turma fosse à xerox buscar os conteúdos dele, porque não queria passar através do EAD [ensino à distância], da maneira online”, relatou a estudante, destacando que a postura já havia gerado diversas reclamações formais à coordenação, sobretudo pelos episódios terem sido durante a pandemia da Covid-19, quando todas as aulas presenciais estavam suspensas por lei.
O incidente do microfone ligado
O episódio mais grave relatado pelos alunos de Veterinária ocorreu ao final de uma aula remota. Sem perceber que o microfone continuava transmitindo áudio para toda a turma, o professor teria iniciado uma conversa telefônica com uma mulher.
“Ele estava conversando com uma mulher e deferindo vários xingamentos para ela… ‘cachorra’, ‘putinha’, várias outras coisas assim”, afirmou a denunciante.
A situação gerou perplexidade e revolta entre os estudantes, que não conseguiram identificar se as ofensas eram direcionadas à pessoa no telefone ou a alguma aluna da turma. O caso motivou a criação de um abaixo-assinado denunciando a conduta do docente ao Centro de Ciências Humanas e Letras (CCHL).
“Transferência” em vez de punição
Ainda de acordo com a denúncia, a resposta institucional, na época, foi considerada insuficiente pelos alunos. Em vez de uma punição administrativa rigorosa ou encaminhamento às autoridades, o professor foi apenas remanejado de curso. “Em vez de encaminhar para alguma autoridade ou retirar ele, não, eles só encaminharam ele para outro curso dentro da Ufac”, lamentou a estudante.
A reportagem apurou que o histórico de instabilidade e falas discriminatórias do docente já perdura por anos, conforme mencionado também pela professora de Antropologia, Ana Letícia de Fiori, no episódio da última segunda-feira, 23.
Relatos de docentes
A professora do curso de Psicologia da Ufac, Roberta Alves, também relatou episódios ocorridos durante a assembleia docente. Segundo ela, além das falas já mencionadas por Ana Letícia, o professor adotou postura misógina e capacitista.
“Além do que a prof Ana relatou, ele também foi extremamente misógino e capacitista. Quando foi confrontado pelos professores da psicologia que as afirmações dele sobre gênero e sexualidade não tinham nenhum fundamento científico e eram ofensivas, ele interrompia sistematicamente a fala de professoras mulheres, enquanto deixava os homens falarem normalmente”, afirmou.
Roberta declarou que, ao se manifestar, disse ao colega que ele estaria ferindo sua existência ao proferir falas homofóbicas. “Eu disse que ele estava ferindo a minha existência ao proferir falas homofóbicas, ao que fui interrompida com explicações de que ele não estaria se dirigindo a mim. Respondi que ele não precisava se dirigir a mim, porque estava afirmando que pessoas LGBT só são LGBT pq foram vítimas de abuso sexual na infância, o que além de inverídico é homofobia”, relatou.
A docente afirmou ainda que se identificou durante a discussão. “Respondi que sou orgulhosamente lésbica e que a fala dele estava ferindo a minha existência e a de outros colegas. Ele tentou me interromper, ao que pedi para ele não me dirigir a palavra e não me interromper e solicitei que chamássemos a polícia”, disse.
Segundo a professora, antes disso o docente também mencionou um dos processos administrativos aos quais responde, referindo-se a estudantes com deficiência como “alunos especiais”. “Falou que teve problemas com ‘alunos especiais’ que não gostaram dele. Ele disse que essas pessoas ‘precisam que conversem com ela o tempo todo’, o que claramente não é o caso. Elas precisam de adaptação educacional e que o professor a cumpra. Além de que não são ‘especiais’, são pessoas com deficiência e com dignidade, que merecem ser tratadas com respeito”, afirmou.
Roberta destacou que as declarações foram feitas com a ciência de que a assembleia estava sendo gravada. “E ele fez tudo isso sabendo e consentindo que a assembleia fosse gravada”, disse.
Após a reunião, segundo ela, professores se dirigiram à delegacia para registrar ocorrência. “Depois saímos de lá e fomos para a delegacia prestar queixa. Estou extremamente triste com essa situação, nunca imaginei que sofreria homofobia e capacitismo de um colega”, declarou.
Próximos passos
Até o momento, a Universidade Federal do Acre não informou se os processos administrativos já abertos foram concluídos nem quais serão os desdobramentos após o episódio mais recente. O espaço permanece aberto para manifestação do professor Mauro Cesar Rocha.








