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Por que a Quaresma começa logo após o Carnaval?

Por que a Quaresma começa logo após o Carnaval?

Foto: David Rangel/Secom

Neste tempo, recebo muitas solicitações com a pergunta acima, buscando compreender o porquê dessa aproximação. Gostaria de partilhar alguns elementos para ajudar com essa pergunta.

O carnaval chegou na América do Sul pelos espanhóis no século XVI. Sua origem está associada às festividades pagãs da Europa, que destacavam o caos (desordem) como princípio de um novo começo, e a proteção dos campos e dos rebanhos.

O caos como princípio de um novo mundo veio da festa romana da deusa Isis: deusa do casamento e da família na mitologia egípcia, a divindade foi adotada por gregos e romanos. Esta “festa” estava relacionada ao início do ano. Segundo a crença, o surgimento de uma “nova criação” é o fruto de um retorno do mundo ao caos inicial. A volta ao caos era representada pela “folia” e pelo disfarce da individualidade por meio de máscaras e maquiagens.

A proteção de campos e rebanhos deriva das celebrações ao deus Lupercus, protetor dos campos e do rebanho, celebrada em Roma durante a última quinzena de fevereiro: um rito consagrado à purificação, à fecundidade e à produção.

Com a cristianização da Europa, e a partir do século VII, o carnaval passa a ser associado a um tempo festivo e de “abundância” de carne que antecedia o jejum quaresmal; tempo de recolhimento e abstinência de carnes e de grandes expressões festivas.

O jejum quaresmal teve início no século VII. Durante a Quaresma, não se consumia a carne e os alimentos com gorduras deveriam ser consumidos antes desse período. Assim, o Papa Gregório, o Grande, chamou o domingo que antecedia a Quaresma de “domingo da carne”. A palavra latina carnavale deriva desse costume e se vincula ao início do tempo da Quaresma.

O sentido da quaresma deriva do coração da fé cristã.

A fé cristã é a expressão do plano de Deus (que Cristo levou à plenitude): a restauração do gênero humano em sua unidade originária e de sua íntima união com Deus e com o mundo. A Igreja manifesta e antecipa, como sinal, as promessas da fé.

Desse modo, a quaresma é o tempo de preparação de quarenta dias para nos fazer mergulhar no coração da fé cristã.

A quaresma é marcada por simbolismos: cinzas sobre a cabeça, cor roxa, deserto, sobriedade de vida. O simbolismo deste tempo está associado a duas dimensões da realidade humana: à sua fragilidade, seu aspecto efêmero e sujeito a mudanças; e ao seu potencial de renascimento, de recomeço por meio da escolha de Deus e do distanciamento do mal.

A Igreja propõe três práticas concretas para este tempo: oração, jejum e caridade. Tais práticas têm por objetivo pedagógico conduzir o ser humano por um caminho que leve à mudança de vida, por meio da revisão interior que ajude a rever o lugar que ocupam determinadas coisas, rever certas vontades que podem asfixiar o eu, impedindo a liberdade. O objetivo é simples: é sempre muito bom se “libertar” de si mesmo.

O jejum não se reduz à privação. Ele torna-se caminho de liberdade. Aceitando “organizar” os desejos que habitam o coração humano, identificar a quais coisas se é mais dependente, cria-se espaço ao mais profundo da existência: menos centrado em si mesmo, sobre pequenos prazeres, tornar-se mais atento ao exterior, ao próximo, à comunidade.

A caridade não se limita a “dar esmola”. Ela permite viver a fraternidade e a solidariedade: o outro é meu irmão.

A oração tira da superficialidade para conduzir ao essencial: a existência de cada pessoa é fruto de gratuidade. Não somos a origem de nossa vida. “Você que habita à sombra do Onipotente. Diga a Javé: ‘Meu refúgio, minha fortaleza, meu Deus, eu confio em ti!’ (Sl 91, 1-2).

“Tu nos criaste para ti, Senhor, o nosso coração não descansará enquanto não repousar em ti” (Santo Agostinho).

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