Neste 4 de fevereiro, Dia Mundial de Combate ao Câncer, o salão de beleza deixa de ser apenas um espaço de estética para se tornar um santuário de acolhimento. Em Rio Branco, a história de Thiago Neves brilha como um exemplo de como o talento profissional pode ser transmutado em uma poderosa ferramenta de dignidade. Cabeleireiro, especialista em cortes, Thiago não molda apenas fios; ele reconstrói identidades e oferece colo emocional através de suas mãos.
Com 40 anos de idade e uma carreira sólida, o profissional acreano tomou uma decisão que define sua essência: não cobrar pelo corte de cabelo de mulheres que enfrentam a batalha contra o câncer. Mais do que habilidade com as tesouras, Thiago é reconhecido pela sensibilidade de captar o que está além do reflexo: ele busca a alma e o desejo silenciados pela dor, devolvendo-os ao espelho.
A jornada de Thiago com a beleza não foi um acaso, mas um chamado. Aos 26 anos, o ofício se revelou através do olhar de suas mães, Alice e Lindomar. “Acreano de pé rachado” e apaixonado por sua terra — paixão que carrega tatuada no braço —, ele desbravou o Brasil ainda jovem para se especializar.
Após anos estudando em grandes academias e bebendo da fonte do visagismo internacional, Thiago sentiu que era hora de voltar para casa. Há três anos, regressou a Rio Branco não apenas com técnicas refinadas, mas com o desejo de criar laços que transcendem as barreiras profissionais, transformando clientes em amigos e cadeiras de salão em portos seguros.
A alma além do mercado

Embora o início de sua trajetória tenha sido marcado pelos desafios áridos do empreendedorismo e da competitividade, foi na busca pela “qualidade de vida” e pelo “olhar humano” que Thiago encontrou seu verdadeiro diferencial. Para ele, a técnica de corte — sua marca registrada — é apenas o meio. O fim é o servir.
Em um mercado que se move por tendências globais, Thiago se destaca por adaptar o luxo do conhecimento à realidade local, mas, acima de tudo, por não permitir que a frieza comercial apague o calor do atendimento social. Ele entende que, para uma mulher fragilizada pela doença, o corte de cabelo não é vaidade; é um ato de resistência e o primeiro passo para o fortalecimento da fé no retorno à saúde.
O projeto de não cobrar por cortes de mulheres em tratamento oncológico nasceu de uma percepção sensível sobre o impacto da doença na identidade feminina. Thiago conta que a ideia surgiu a partir da vivência duradoura com uma cliente que enfrentava a doença.
“Em um atendimento, a cliente chegou muito abalada e, desde o primeiro atendimento, desenvolvemos uma amizade profunda, meus dias eram melhores quando eu a atendia. Ela me ensinou muito”, relembra Thiago emocionado, ao lamentar sua partida: “mas antes de ir [morrer], ela me ensinou o olhar humano. Porque não é o dinheiro que nos traz a felicidade, é saber que você agrega o lado humano”, relembra.
Responsabilidade social e equilíbrio
Mesmo com uma agenda lotada, Thiago faz questão de priorizar esses atendimentos. Para ele, profissionais que alcançam o reconhecimento têm o dever social de retribuir à comunidade. Ele organiza seu tempo de forma que o trabalho comercial sustente sua estrutura, permitindo que a missão social continue sendo realizada com excelência e sem custos para as pacientes.
“Eu gosto da palavra servir. Tenho esse dom e posso servir. Eu consigo equilibrar com isso, chegou o meu momento de servir. A cliente marca e a agendo no horário normal, porque me organizo para isso: para servir. Para servir mulheres, por isso Deus me deu duas mães”, enfatiza.
Para as mulheres que acabam de receber o diagnóstico e temem a perda de sua identidade visual, Thiago deixa uma mensagem de encorajamento: “O cabelo é um acessório que vai crescer novamente, mas a sua essência e a sua força permanecem intactas”. Ele reforça que o cuidado profissional nesse momento não é futilidade, mas uma forma de reafirmar a própria vida diante do desafio.