O fim do Carnaval abre espaço para um dos períodos mais importantes do calendário cristão. A Quarta-feira de Cinzas marca o início da Quaresma, tempo dedicado à reflexão, à conversão pessoal e à preparação espiritual para a Páscoa. A data é simbolizada pelo rito da imposição das cinzas nas celebrações religiosas, gesto que carrega significado espiritual e social para os fiéis.
O portal A GAZETA conversou com o padre Mássimo Lombardi, que explicou o sentido desse período para os cristãos. Segundo o sacerdote, a cinza representa, antes de tudo, a condição humana.
“Recebemos aquela palavra: ‘lembra-te que és pó e ao pó voltarás’. Isso representa humildade, reconhecer que somos limitados. Mas também é sinal público de arrependimento, de que queremos mudar de rumo e voltar para o que é essencial, que é o sagrado, o respeito às pessoas, o amor, a reconciliação e a solidariedade”, disse.

O sentido do jejum e da penitência
Durante a Quaresma, três práticas são tradicionalmente incentivadas: oração, jejum e penitência. Para o padre, o jejum precisa ser entendido além da alimentação.
“Nós desperdiçamos demais hoje. Não temos limites nos gastos e muita comida é jogada fora. O jejum nos chama a sermos mais sóbrios, a rever nossos excessos, nosso consumo”, afirmou. Ele lembra também a tradição da abstinência de carne às sextas-feiras como forma simbólica de recordar o sofrimento de Jesus.
Sobre a penitência, Lombardi destaca que o conceito vai além de sacrifícios pontuais. “Penitência significa mudar o estilo de vida. A palavra original quer dizer conversão mesmo. Cada pessoa é chamada a reconhecer seus defeitos, seus ‘pecados de estimação’, e buscar uma mudança concreta no dia a dia.”
Oração e reconexão com a fé
A oração é outro eixo central desse período. Segundo o padre, a Quaresma é um convite para retomar práticas espirituais que muitas vezes ficam em segundo plano.
“Às vezes a pessoa se esqueceu, deixou de lado o relacionamento com Deus. A oração diária, a missa dominical, a confissão, tudo isso ajuda a fortalecer a fé. Há práticas aconselhadas, como a Via Sacra e o Terço, que ajudam nessa caminhada espiritual”, explicou.
Reflexão social e Campanha da Fraternidade
A Quaresma também é associada à Campanha da Fraternidade, que neste ano traz reflexões ligadas à moradia e à dignidade humana. Na reflexão, o padre usa a casa como símbolo dessa conversão pessoal e social.
“A cozinha nos lembra a partilha, porque muitas famílias nem têm o que cozinhar. A sala é o espaço do diálogo, do encontro, mas hoje muitos vivem isolados, presos ao celular. E o quarto representa dignidade, descanso seguro, algo que ainda falta para muita gente que dorme na rua ou em condições precárias”, destacou.
Ele afirma que essa reflexão deve provocar atitudes concretas. “Precisamos combater a cultura da indiferença, aprender a ouvir quem sofre e reconhecer que o descanso, a casa, a dignidade do outro são tão importantes quanto os nossos.”
Um tempo de conversão
Para o sacerdote, a Quaresma vai além das tradições religiosas e propõe transformação pessoal e coletiva.
“Quando rezamos o Pai Nosso, lembramos que o mundo é uma casa comum. Essa casa precisa ter cozinha, sala e quarto dignos para todos os filhos de Deus, sem exceção. Essa é a verdadeira conversão que a Quaresma nos propõe”, concluiu.