O que deveria ser uma celebração do esporte e da disciplina virou um caso de polícia em Rio Branco. No último sábado, 7, a Escola Imaculada Conceição foi palco da Copa Pódio de Jiu-Jitsu, o maior evento da modalidade no estado. No entanto, a vitória de uma atleta de 15 anos dentro do tatame foi seguida por supostos ataques de cunho racista proferidos por uma adversária em ambiente digital.
De acordo com os relatos, a suposta agressora, uma adolescente de 16 anos que saiu derrotada do confronto, teria utilizado as redes sociais no domingo, 8, para publicar ofensas contra a vencedora. Entre as mensagens, foram identificados áudios que chamavam a vítima de “urubu do diabo” e postagens onde a autora afirmava que iria “se pintar de preta” para ironizar a situação. Após a repercussão negativa, a jovem responsável pelos ataques chegou a enviar um pedido de desculpas antes de excluir seus perfis nas redes sociais.
Abalada, a família da vítima agiu rapidamente. Na segunda-feira, 9, a responsável legal da adolescente registrou um Boletim de Ocorrência na Delegacia Central de Flagrantes (Defla) e formalizou a denúncia junto ao Ministério Público do Acre (MPAC).
“A gente passou a tarde inteira na delegacia e já prestei o boletim de ocorrência. Formulei a denúncia no Ministério Público contra o racismo”, afirmou a mãe, em entrevista ao portal A GAZETA. Segundo ela, outras famílias a procuraram após o caso vir à tona para relatar comportamentos hostis anteriores por parte da mesma agressora.
A comunidade esportiva reagiu com unidade e repúdio. Leonardo Calid, professor responsável pelo Centro de Treinamento Gracie Barra Acre, onde a vítima treina, afirmou ter recebido a notícia com extrema surpresa e colocou a escola à disposição da família para suporte jurídico e emocional.
“Em mais de 30 anos no meio das artes marciais no Acre, eu nunca tinha presenciado algo nesse sentido. Não é comum no jiu-jitsu, tanto que a comunidade toda tem se posicionado de modo a repreender essa conduta”, declarou o treinador. Calid reforçou que, apesar da rivalidade saudável do esporte, o racismo é uma atitude isolada que não condiz com a disciplina da arte marcial.
Academias locais, como a Evolution Sport Center e o CT Brothers BJJ, também publicaram notas oficiais de apoio à vítima e à sua equipe. As instituições reafirmaram que o esporte deve ser um ambiente pautado pelo respeito e pela dignidade humana, sendo absolutamente incompatível com qualquer forma de intolerância ou preconceito.
O caso agora segue sob análise das autoridades competentes. Por envolver duas menores de idade, o processo corre sob sigilo para preservar a identidade das adolescentes, mas a família da vítima reitera que busca uma repreensão justa dentro do que prevê a lei. “O jiu-jitsu transforma vidas e melhora as pessoas. Temos certeza de que foi um ato isolado, e a comunidade está unida na reprovação desse tipo de conduta”, concluiu Calid.
Confira a nota na íntegra
“NOTA DE APOIO – EVOLUTION SPORT CENTER
A Evolution Sport Center manifesta seu irrestrito apoio à atleta da Gracie Barra Acre, bem como à própria academia, diante dos lamentáveis episódios de cunho discriminatório recentemente divulgados.
Reafirmamos que o esporte, em especial o Jiu-Jitsu, deve ser um ambiente pautado pelo respeito, pela igualdade e pela dignidade humana, sendo absolutamente incompatível com qualquer forma de racismo, preconceito ou intolerância.
Nos solidarizamos com a atleta e reiteramos que não há espaço, dentro ou fora do tatame, para atitudes que afrontem os valores que sustentam o esporte e a convivência social.
Evolution Sport Center”