A repercussão das denúncias de estupro coletivo envolvendo atletas do Vasco da Gama-AC tomou contornos políticos e institucionais nesta terça-feira, 17. Lideranças de diferentes espectros e setores da sociedade acreana emitiram notas oficiais de repúdio, unindo vozes contra, o que eles consideram, uma tentativa de relativização do crime e em defesa do trabalho da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam).
O centro das críticas é a postura da comissão técnica do clube, que classificou a denúncia como “frágil”. Para as autoridades, tal posicionamento não apenas agride as vítimas, mas reforça uma cultura de impunidade no esporte e na capital.
Críticas ao “silêncio e relativização”
O vereador e presidente do Partido dos Trabalhadores no Acre (PT-AC), André Kamai, foi enfático ao classificar o episódio como uma “barbárie”. Kamai direcionou duras críticas ao técnico da equipe, afirmando que um educador de jovens não pode ser “avalista da impunidade”.
“Quem lidera pelo exemplo não pode ser o avalista da impunidade. Quando um comandante minimiza o inaceitável, ele apenas encoraja que a violência continue fazendo morada na nossa terra”, declarou o vereador.
Kamai também aproveitou o espaço para cobrar a gestão municipal de Rio Branco, criticando o que chamou de “abandono institucional” e citando a baixa dotação orçamentária para o enfrentamento à violência de gênero na capital.
Defesa das instituições e do Estado de Direito
A deputada federal Socorro Neri (PP) manifestou profunda indignação com a tentativa do clube de descredibilizar o trabalho investigativo da Deam. Segundo a parlamentar, ataques às instituições que defendem a mulher são afrontas ao Estado de Direito e barreiras que precisam ser derrubadas.
“Não há espaço para relativizações. Toda denúncia deve ser tratada com a máxima seriedade, garantindo proteção integral às vítimas e punição exemplar aos culpados”, pontuou a deputada. Neri reforçou a importância do Disque 180 como ferramenta essencial de denúncia e combate ao crime.


Sobre o “consentimento”
Pelo setor produtivo e cultural, Patrícia Dossa, conselheira do Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC Acre), assinou uma nota de repúdio destacando que a popularidade ou influência de atletas não pode servir de escudo para crimes.
O CMEC trouxe um ponto fundamental ao debate: a natureza do consentimento. “Ele não é permanente, nem automático. Pode ser retirado a qualquer momento. Sem consentimento, é violência”, diz o documento. A entidade reforçou que discursos que culpabilizam as mulheres apenas aprofundam as desigualdades estruturais da sociedade.