Um estudo realizado no A.C. Camargo Cancer Center, em São Paulo, identificou aumento contínuo de câncer colorretal no Brasil ao longo de 23 anos, com crescimento expressivo entre adultos mais jovens.
A pesquisa analisou 5.559 casos diagnosticados entre 2000 e 2023 e encontrou aumento anual médio de 8,5% no grupo de 30 a 39 anos. Entre pessoas com menos de 50 anos, tradicionalmente consideradas de menor risco, o crescimento anual foi de 7,6%. Na população com 50 anos ou mais, o resultado foi de 8,1%.
O padrão observado difere de muitos países de alta renda, onde a incidência em pessoas acima de 50 anos vem caindo, em parte por causa de programas consolidados de rastreamento.
O crescimento consistente do câncer colorretal em pessoas com menos de 50 anos reforça que essa doença não pode mais ser considerada exclusiva da população mais velha, de acordo com o cirurgião oncológico Samuel Aguiar, um dos autores do estudo e líder do Centro de Referência em Tumores Colorretais do A.C. Camargo.
“É um alerta para profissionais de saúde e para a população em geral de que é preciso prevenir.”
O tema também ganhou visibilidade recente com a morte de figuras públicas diagnosticadas com câncer colorretal.
A cantora Preta Gil morreu em 20 de julho de 2025, aos 50 anos, em decorrência de um câncer na porção final do intestino. Ela recebeu o diagnóstico em janeiro de 2023 e, em 2024, a doença voltou e se espalhou para o peritônio e outros órgãos. Preta chegou a realizar tratamentos experimentais nos Estados Unidos.
Em fevereiro deste ano, o ator James Van Der Beek, protagonista da série “Dawson’s Creek”, morreu aos 48 anos em razão de um câncer colorretal. Ele tratava a doença desde 2024, e o caso voltou a chamar atenção para o aumento da incidência desse tipo de tumor em pessoas mais jovens.
No contexto brasileiro, os pesquisadores destacam falhas na cobertura de rastreamento, diagnóstico tardio e desigualdades no acesso ao sistema de saúde.
Segundo o presidente da SBCP (Sociedade Brasileira de Coloproctologia), Olival de Oliveira Júnior, no Brasil, cerca de 65% dos casos de câncer colorretal no SUS (Sistema Único de Saúde) ainda são diagnosticados em estágio avançado.
“A campanha anual do Março Azul mostra que é possível rastrear a população de forma eficiente e com baixo custo, usando o exame de sangue oculto nas fezes. É encaminhado para colonoscopia apenas quem realmente precisa.”
Apesar do aumento da incidência, o estudo mostra que pacientes com menos de 50 anos apresentam maior sobrevida global em cinco anos: 72,7%, contra 64,1% entre aqueles com 50 anos ou mais. O estágio da doença no momento do diagnóstico, porém, segue determinante.
Pacientes diagnosticados nos estágios iniciais (1 e 2) tiveram sobrevida em cinco anos de 84,4%, enquanto casos avançados (estágios 3 e 4) tiveram taxa de 52,7%.
“Embora os pacientes mais jovens apresentem melhores taxas de sobrevida, isso não reduz a gravidade do problema. Muitos ainda são diagnosticados tardiamente, quando as opções de tratamento são mais complexas”, diz Aguiar, do A.C. Camargo.
Campanha de prevenção
Os dados integram o contexto da campanha Março Azul, organizada pela SBCP, pela Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva e pela Federação Brasileira de Gastroenterologia.
Em sua quarta edição, a mobilização busca ampliar informação sobre câncer de intestino, estimular prevenção e incentivar o diagnóstico precoce.
Neste ano, a campanha inclui um mutirão em Seabra (BA), em parceria com o governo do estado, a prefeitura, o Hospital Regional da Chapada/Fabamed e a Secretaria de Saúde.
Serão realizados 8 mil testes de sangue oculto nas fezes (teste FIT), distribuídos por agentes comunitários, e há expectativa de 500 colonoscopias até 7 de março para pacientes com resultado alterado.
Teste simples e eficaz
O teste FIT é apontado pelas entidades como uma das principais estratégias de detecção precoce. Feito a partir de amostra de fezes, identifica sangue oculto, que pode ser um sinal inicial da doença, e direciona quem precisa realizar colonoscopia.
O câncer colorretal costuma ser silencioso nos estágios iniciais, quando as chances de cura são maiores.
Entre os sinais e sintomas descritos estão alteração persistente do hábito intestinal, mudança no formato das fezes, presença de sangue, dor ou desconforto abdominal prolongados, sensação de evacuação incompleta, gases e inchaço frequentes, cansaço associado à anemia, perda de peso sem causa aparente e redução do apetite.
Os autores do estudo defendem que os achados devem orientar políticas públicas voltadas ao rastreamento, à ampliação do acesso ao diagnóstico e ao tratamento oncológico e à redução de desigualdades regionais.
Também destacam a importância de maior atenção a sintomas em adultos jovens, faixa etária que tradicionalmente não era prioridade em programas de prevenção.
Por: CNN BRASIL








