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Tenente-coronel humilhava e chamava esposa morta de ‘burra’, dizem mensagens: ‘lugar de mulher é em casa, cuidando do marido’

Geraldo Neto foi preso nesta quarta (18) pela Corregedoria da PM em São José dos Campos. Ele foi indiciado por feminicídio e fraude processual. Soldado Gisele Alves foi morta com tiro na cabeça em 18 de fevereiro.

A Gazeta do Acre por A Gazeta do Acre
18/03/2026 - 15:07
A PM Gisele Alves Santana e o tenente-coronel Geraldo Neto, acusado de assassinar a mulher no apartamento onde eles viviam, no Centro de São Paulo. — Foto: Reprodução/TV Globo

A PM Gisele Alves Santana e o tenente-coronel Geraldo Neto, acusado de assassinar a mulher no apartamento onde eles viviam, no Centro de São Paulo. — Foto: Reprodução/TV Globo

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A Corregedoria da Polícia Militar conseguiu extrair do celular do tenente-coronel Geraldo Neto troca de mensagens entre ele e a esposa, a PM Gisele Alves Santana, morta com um tiro na cabeça no apartamento onde eles viviam, no Centro de São Paulo.

Ele foi preso nesta quarta-feira (18), após prisão preventiva ser decretada pela Justiça Militar, acusado de feminicídio e fraude processual.

Nas conversas com o marido obtidas pelo SP1, da TV Globo, Gisele afirma que era submetida a episódios de humilhação, piadas e comportamento “babaca” por parte do marido, até no ambiente de trabalho na Polícia Militar, onde ele aparecia na seção onde ela trabalhava e ficava horas observando o trabalho dela.

Em um dos diálogos, ela escreve que Geraldo Neto teria que mudar o comportamento “babaca” e “sem escrúpulos”.

“Não dá para entender. Você pediu para eu não ir embora. Eu fico e você continua igual, até pior, com seu tratamento. Falando coisas para me humilhar, para me provocar”, escreveu a PM, morta com um tiro na cabeça.

“Se você quer separar, vamos separar. Mas, se você continuar, vai ter que mudar seu comportamento estúpido, ignorante, intolerante e sem escrúpulos. Estou deixando bem claro para você que não vou aguentar muito tempo esse comportamento babaca”, afirmou.

Gisele Alves Santana também reclamou: “Toda hora jogando piada, me chamando de burra, mandando arrumar um soldado. O que a função tem a ver com relacionamentos?”, disse.

Em outras mensagens, segundo a investigação, Geraldo Neto faz declarações machistas contra a esposa: “Lugar de mulher é em casa, cuidando do marido. E não na rua, caçando assunto. Rua é lugar de mulher solteira à procura de macho”, declarou.

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Para a Corregedoria da PM – que pediu a prisão do tenente-coronel – os diálogos revelam a “concepção de relacionamento baseada em submissão e hierarquia no âmbito doméstico”.

“Tais manifestações não se apresentam como meros desentendimentos ocasionais entre um casal, mas sim como indícios de violência psicológica reiterada, caracterizada por tentativas de controle, constrangimento e desqualificação da autonomia da Sd PM Gisele”, disse a investigação.

Na visão dos investigadores da PM, “antes mesmo do evento fatal investigado, a Sd PM Gisele já estaria submetida a um ambiente relacional marcado por comportamentos agressivos e potencialmente violentos”.

“O conteúdo extraído do aparelho celular não apenas confirma o contexto de conflito conjugal anteriormente relatado por testemunhas, como também evidencia elementos objetivos de violência psicológica e dinâmica relacional marcada por tensão e controle, circunstâncias que assumem relevância para compreensão do ambiente em que se inserem os fatos investigados”, disseram os policiais corregedores que investigam o caso.

Tenente-coronel humilhava e chamava esposa morta de 'burra', dizem mensagens: 'lugar de mulher é em casa, cuidando do marido'
Mensagens trocadas entre o tenente-coronel Geraldo Neto e a esposa PM Gisele Alves Santana. — Foto: Reprodução/TV Globo

Prisão em São José dos Campos

A Justiça Militar decretou nesta terça-feira (17) a prisão preventiva do tenente-coronel Geraldo Neto. Ele foi preso pela Corregedoria da Polícia Militar (PM) em São José dos Campos, interior do estado, por volta das 8h17 desta quarta-feira (18).

Por meio de nota, a defesa do oficial reagiu à prisão de seu cliente alegando que ela não poderia ter sido feita pela Justiça Militar.

“A Justiça Militar é incompetente para analisar, processar e julgar o caso e, especialmente, para decretar medidas cautelares”, disse o advogado Eugênio Malavasi, que defende Geraldo. O criminalista vai suscitar conflito de competência com a Justiça comum.

Antes de ser detido, o coronel alegava que a esposa havia se suicidado após uma discussão. Mas essa versão caiu por terra após a Polícia Civil passar a investigar o caso como morte suspeita e laudos periciais indicarem que Geraldo matou a soldado.

A Corregedoria da PM pediu a prisão do coronel com base na investigação da Polícia Civil, que um dia antes o indiciou pelos crimes de feminicídio (homicídio contra mulher por questões de gênero) e fraude processual (ter adulterado a cena do crime).

Tenente-coronel humilhava e chamava esposa morta de 'burra', dizem mensagens: 'lugar de mulher é em casa, cuidando do marido'
Coronel Geraldo Neto (ao centro) é preso pela Corregedoria da PM por suspeita de matar a esposa, a soldado Gisele Alves — Foto: Reprodução/TV Globo

Ainda na terça-feira (17), a delegacia que investiga o caso também pediu a prisão de Geraldo, mas a Justiça comum ainda não havia se manifestado. A decisão de prender o coronel saiu antes pela Justiça militar.

O que diz a Justiça Militar

Por meio de nota, o Tribunal de Justiça Militar (TJM) informou que “a prisão preventiva foi decretada com base na garantia da ordem pública, na conveniência da instrução criminal e na necessidade de preservação da hierarquia e disciplina militares”.

“O magistrado destacou o risco de interferência nas investigações, inclusive pela possibilidade de influência sobre testemunhas, além da gravidade concreta dos fatos apurados. A decisão também autorizou a apreensão de aparelhos celulares, a quebra de sigilo de dados eletrônicos e o compartilhamento de provas com a Polícia Civil, que conduz investigação paralela”, informa trecho do comunicado do TJM.

Tenente-coronel humilhava e chamava esposa morta de 'burra', dizem mensagens: 'lugar de mulher é em casa, cuidando do marido'
O tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, marido da policial militar Gisele Alves Santana. — Foto: Reprodução/TV Globo

Na determinação, o juiz militar também determinou que “o investigado deverá ser submetido a audiência de custódia, conforme previsto na legislação vigente” e as investigações prosseguem para o completo esclarecimento dos fatos.

Também por nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que o coronel seguirá preso para o 8º Distrito Policial (DP), Brás, no Centro de São Paulo, onde Geraldo é investigado pelo assassinato de Gisele. Ele será interrogado e passará por exames de corpo de delito.

Após isso, irá para o Presídio Militar Romão Gomes, na Zona Norte da capital. “O Inquérito Policial Militar (IPM) será concluído nos próximos dias”, informa o comunicado da pasta da Segurança.

Laudos apontam feminicídio

A decisão das autoridades em pedir a prisão de Geraldo aconteceu após a Polícia Técnico-Científica anexar ao inquérito laudos relacionados à morte de Gisele. Indícios que constam em dois dos 24 laudos foram determinantes para isso:

  • Trajetória da bala que atingiu a cabeça da vítima;
  • Profundidade dos ferimentos encontrados.

Resultados de exames, como o necroscópico, o da exumação do corpo e o toxicológico foram cruciais para a delegacia concluir que Geraldo matou Gisele por ciúmes e possessividade. O oficial tem 53 anos; Gisele tinha 32.

Muitos dos laudos foram refeitos a pedido da própria investigação porque havia dúvidas sobre as circunstâncias da morte da soldado. Veja abaixo a importância de cada um deles para a investigação:

Necroscópico: concluiu que Gisele tinha marcas de dedos no pescoço e desmaiou antes de ser baleada e morta com um tiro na cabeça;

Trajetória do tiro: apontou que o disparo foi dado de baixo para cima e com o cano encostado na cabeça;

Exumação: vários exames foram refeitos no corpo, até mesmo complementares, como o necroscópico;

Toxicológico: não encontrou resquícios de álcool ou drogas, descartando a possibilidade de ela ter bebido ou estar dopada;

Residuográfico: não detectou pólvora nas mãos de Gisele nem nas de Geraldo;

De local de crime: Gisele foi encontrada caída e segurando a arma, o que é incomum em casos de suicídio _segundo peritos, o mais provável é que ela largasse a pistola.

Outros pontos que chamaram a atenção:

  • O fato de o coronel ter telefonado para a PM, para pedir socorro, apenas 29 minutos minutos após uma vizinha escutar um tiro;
  • O coronel havia dito que tinha tomado banho antes de a mulher atirar, mas quando socorristas chegaram ao imóvel o encontraram com o corpo seco;
  • Somente após ter ligado para um desembargador amigo dele, que foi à residência, é que Geraldo foi se banhar, desobedecendo inclusive orientação de policiais militares que estavam no local. Câmeras de segurança gravaram o encontro do coronel com o desembargador (veja vídeo nessa reportagem);
  • Exames indicaram a presença de sangue de Gisele no box do banheiro e em outros cômodos do apartamento. A perícia usou o luminol _equipamento com reagente químico, que indica substância hematóide contra a luz _ para achar as gotas de sangue;
  • Após a perícia na residência, três policiais militares mulheres foram até lá limpar o imóvel. Por causa dessa conduta, o coronel passou a ser investigado pela Corregedoria da PM também por abuso de autoridade. Geraldo havia pedido afastamento da corporação após a morte da esposa;
  • Sexológico: constatou que ela não estava grávida;
  • Reconstituição: conhecido tecnicamente como reprodução simulada, ele apresentará por meio de fotos as versões que Geraldo e testemunhas deram para o que ocorreu. Ainda não ficou pronto.

Por: G1

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