Ícone do site Jornal A Gazeta do Acre

A quem importa a vida das mulheres?

A quem importa a vida das mulheres?


Você sabia que a cidade de Rio Branco aprovou apenas três reais para políticas públicas voltadas às mulheres? Isso mesmo: três reais. Agora compare esse valor com outro número. Somente em 2025, 14 mulheres foram assassinadas no Acre por feminicídio.

Nos últimos dias, uma série de denúncias de violência doméstica, abusos sexuais contra menores, estupros e feminicídios voltou a ocupar o noticiário em todo o país. Essa onda crescente de violência contra a mulher não é apenas um dado estatístico; é o sintoma de uma falha estrutural gravíssima no que tange às políticas públicas de enfrentamento a essa “epidemia”.

“Epidemia” foi exatamente o termo utilizado pelo Movimento 8 de Março para definir a realidade que enfrentamos. A misoginia e o machismo ainda servem de alicerce para leis e comportamentos, perpetuando um ciclo onde a vida feminina parece valer menos.

Dados divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, nesta semana, revelam um fato desolador: o Acre voltou a ocupar o topo do ranking nacional de feminicídios. Somente em 2025, 14 mulheres foram assassinadas no estado apenas por serem mulheres.

Rio Branco, infelizmente, lidera esse ranking estadual, com quatro casos registrados entre janeiro e outubro de 2025 [Polícia Civil do Acre 2026]. Mas o que choca tanto quanto o sangue derramado é a resposta ou a falta dela. Enquanto as mulheres são caçadas em suas próprias casas, a Lei Orçamentária Anual de Rio Branco (LOA), aprovada em dezembro de 2025, reservou um valor que beira o escárnio: apenas três reais para as políticas para as mulheres.

É um dado que exige reflexão profunda: em um orçamento global de R$ 2,4 bilhões, o programa ‘Mulher com Dignidade’ aparece com uma dotação simbólica de apenas três reais. Ainda que se argumente ser uma reserva técnica de dotação, a fixação de um valor tão ínfimo em uma peça orçamentária oficial levanta questionamentos inevitáveis sobre a prioridade conferida às políticas de proteção feminina.

Ao destinar uma quantia que não supre as necessidades básicas de qualquer ação governamental, a gestão municipal deixa uma lacuna preocupante na agenda pública, distanciando o planejamento financeiro da realidade urgente vivida pelas mulheres de Rio Branco.

Diante desse cenário, tornam-se inevitáveis os questionamentos sobre a operacionalização de serviços essenciais, como as casas de acolhimento, as campanhas educativas e o suporte jurídico e psicológico. A escassez de recursos vinculados compromete a execução dessas frentes de trabalho, criando um descompasso entre as promessas de proteção e a viabilidade prática das ações.

Enquanto o planejamento orçamentário não reflete a gravidade do problema, os impactos sociais tornam-se cada vez mais visíveis e dolorosos: nos últimos quatro anos, 111 crianças e adolescentes menores de 18 anos ficaram órfãos no Acre em decorrência do feminicídio. São trajetórias marcadas pela ausência e por um vácuo de amparo estatal, evidenciando que a fragilidade na proteção das mães reverbera, agora, na falta de garantias para o futuro desses jovens

A reflexão que eu proponho, como mulher, mãe de uma menina, filha de uma mulher, irmã de outras mulheres e jornalista, é: a quem importa a vida das mulheres? A quem importa a dor dessas famílias destroçadas? A quem importa o futuro dos filhos e filhas dessas mulheres?

Não podemos mais aceitar essa omissão. Se você está vivendo uma situação de violência ou conhece alguém que precise de ajuda, não se cale. A denúncia continua sendo o primeiro passo para romper o ciclo, mas precisamos cobrar que o poder público saia da inércia e transforme promessas em recursos reais.

Ligue para o 180 (Central de Atendimento à Mulher) ou acione a Polícia Militar pelo 190 em casos de emergência. No Acre, procure a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM). Denunciar é um ato de coragem e de sobrevivência, mas exigir políticas públicas dignas é um dever de cidadania que não pode mais esperar.

Maria Meirelles é jornalista, mãe e defensora dos direitos humanos*

O conteúdo acima é um artigo de opinião e reflete exclusivamente a visão e análise da autora. As declarações e críticas aqui expostas não representam, necessariamente, a posição política ou a opinião institucional deste veículo de comunicação.*

Sair da versão mobile