Coragem, disciplina e vocação para salvar vidas fazem parte da rotina de quem veste a farda do Corpo de Bombeiros. No Acre, duas mulheres representam essa força dentro da corporação: Marcela Sarkis Sopchaki e Marcella Lira França.
Com trajetórias diferentes, mas marcadas por dedicação e superação, elas ajudam a contar a história da crescente presença feminina em uma carreira que durante muito tempo foi dominada por homens. Entre resgates, formação rigorosa e o compromisso diário com a população, as duas bombeiras mostram que determinação e preparo abrem caminhos dentro e fora dos quartéis.
Pioneirismo e comando
Aos 38 anos, Marcela Sarkis Sopchaki alcançou um marco histórico no Corpo de Bombeiros Militar do Acre ao se tornar a primeira mulher a comandar um batalhão da corporação no estado, no município de Xapuri.
Integrante da instituição desde 2007, ela construiu a carreira paralelamente à formação acadêmica e ao crescimento dentro da estrutura militar. Formada em Economia pela Universidade Federal do Acre (Ufac), Sopchaki ingressou na corporação após aprovação em concurso público ainda muito jovem.
“Eu entrei no corpo de bombeiros com 20 anos, né, bem nova. Foi meu primeiro emprego. Foi o primeiro concurso que eu passei, passei no TAF, tudo certinho. Eu passei com 19, entrei com 20, né, e estou até hoje”, conta.

Trajetória dentro da corporação
Segundo a comandante, a maturidade profissional foi construída ao longo dos anos dentro da própria instituição.
“Eu meio que amadureci junto do bombeiro, porque eu entrei ao final da minha adolescência no quartel, entrei com 20 anos, tive que trancar para fazer o curso de formação, depois voltei para terminar o curso de economia. Até então eu pensava assim, ah, vai ser algo transitório, mas não, realmente eu fui me apaixonando pela profissão.”
Em 2015, Sopchaki foi aprovada no concurso para oficial. Na época, já era terceiro-sargento. Após a convocação, mudou-se para Goiás, onde cursou a Academia Bombeiro Militar e concluiu o Curso de Formação de Oficiais em 2018.
“Quando surgiu a oportunidade do concurso para Oficial, eu já era terceiro sargento. Passei também, aí quando eu fui chamada já era terceiro sargento, dei baixa e fui para Goiás fazer o curso de formação, fiquei dois anos lá, e foi uma experiência muito enriquecedora.”
No dia 1º de agosto de 2026, ela completa 19 anos de atuação na corporação.

Primeiras turmas femininas
Marcela fez parte da primeira turma feminina de soldados e também da primeira turma feminina de oficiais do Corpo de Bombeiros no Acre. Para ela, os desafios existiram desde o início, mas foram superados com preparo e união.
“Eu fui da primeira turma feminina do bombeiro, 2007, e fui da primeira turma de oficiais também feminina. A gente sempre enfrentou desafios, mas com união entre nós a gente conseguiu vencer todos esses obstáculos.”
Hoje, ela observa uma presença cada vez maior de mulheres em posições de liderança dentro da corporação.
“Nossa atual gestão não olha se é mulher ou se é homem, olha por competências, e nós estamos nos destacando. Várias mulheres estão comandando, em diretoria, em comando de batalhão, em várias posições de destaque.”

Ocorrência que marcou
Entre as inúmeras ocorrências atendidas ao longo da carreira, um episódio ocorrido durante a enchente de 2012 permanece vivo na memória da comandante.
“Ele estava ajudando a gente na enchente e fizeram uma ligação clandestina ali na 6 de agosto e ele foi eletrocutado, não resistiu. Era um jovem de 19 anos. Aquilo ali me deixou muito triste, muito marcada.”
Segundo ela, atendimentos envolvendo mortes ou perdas materiais totais costumam ser os mais difíceis para os militares.
Conselho para quem sonha com a farda
Para meninas e mulheres que desejam seguir carreira na área militar, Sopchaki destaca a importância de preparo físico e dedicação aos estudos.
“Estudem e treinem para parte física, porque tem que ter equilíbrio. Não adianta ter muito conhecimento e a parte física não ser boa, e não adianta ter uma parte física excelente e na hora da caneta não passar no concurso.”
Apesar dos desafios, ela afirma que a maior recompensa da profissão é o sentimento de missão cumprida.
“É uma satisfação pessoal de dever cumprido mesmo. É algo que eu gosto muito. Eu não me arrependo.”

Múltiplos caminhos e a vocação para servir
Aos 32 anos, Marcella Lira França reúne diferentes vocações. Fisioterapeuta, estudante de Direito e soldado do Corpo de Bombeiros, ela representa uma geração de mulheres que ampliam os espaços de atuação feminina na sociedade.
Integrante da corporação desde 2022, Marcella atua atualmente na Diretoria de Saúde do Corpo de Bombeiros, contribuindo para o bem-estar físico dos militares e de seus familiares.
“Meu nome é Marcella Lira França, tenho 32 anos, sou nascida no Rio de Janeiro, mas moro aqui em Rio Branco minha vida inteira, sou fisioterapeuta e atualmente curso Direito na UFAC. Eu prestei o concurso para o corpo de bombeiros em 2022, para o cargo de soldado combatente, vi nesse concurso uma oportunidade de estabilidade e de crescimento profissional, atualmente eu sou lotada na Diretoria de Saúde do Corpo de Bombeiros, onde tenho a oportunidade de contribuir para o bem estar físico da tropa e de seus familiares”, conta.
A decisão de ingressar na carreira militar surgiu a partir da abertura do concurso público e também do incentivo familiar. O pai, que também é militar, foi uma das principais motivações para que ela seguisse o mesmo caminho.

Desafios na formação
O curso de formação foi, segundo Marcella, uma das fases mais intensas da trajetória profissional.
“Os desafios foram muitos, o curso de formação do corpo de bombeiros, exige preparo físico, mental e psicológico, fomos forjados diariamente com inúmeras situações desafiadoras, que colocam nossa coragem e resistência em prova diariamente, com o objetivo de estarmos sempre preparados para qualquer tipo de ocorrência, afinal de contas, nosso dever é salvar vidas e para isso precisamos de muito treino, preparo e técnica.”
Entre os desafios enfrentados, as atividades de salvamento em altura foram as mais difíceis.
Mesmo sendo um medo pessoal, ela afirma que conseguiu superar a dificuldade com apoio dos instrutores, colegas e da família.
Experiência marcante na enchente de 2023
Uma das experiências mais marcantes da carreira aconteceu durante a enchente que atingiu o Acre em 2023. Ainda como aluna em formação, Marcella participou das ações de apoio à população afetada.
“Sempre que temos a oportunidade de atuar ajudando a comunidade, somos recompensados de alguma maneira. Mas foi na enxurrada e enchente que teve em 2023 que eu vi como o corpo de bombeiros é peça fundamental na sociedade e que nosso trabalho faz diferença na vida das pessoas, foi um período muito difícil para sociedade acreana, muitas famílias perderam tudo que tinham, e a nossa atuação, na época como aluna ainda, foi essencial para ajudar muitas pessoas, me impactou profundamente a quantidade de famílias que pudemos ajudar e resgatar”, relembra.

Foto: Arquivo Pessoal – “O caminho não é fácil, é cheio de desafios, mas recompensador, que nós mulheres podemos estar onde quisermos, exercendo a profissão que sonhamos, que escolhemos ou que nos escolheu”.
Uma mensagem para outras mulheres
Ao falar sobre a profissão e sobre o significado da data, Marcella deixa uma mensagem para mulheres que sonham seguir carreira na corporação.
“O caminho não é fácil, é cheio de desafios, mas recompensador, que nós mulheres podemos estar onde quisermos, exercendo a profissão que sonhamos, que escolhemos ou que nos escolheu. Eu desejo que todas nós encontremos nosso propósito no mundo, para que juntas todos os dias, possamos fazer do mundo um lugar melhor e mais seguro para vivermos. E por fim, nunca desistam dos seus sonhos, sempre vale a pena lutar por eles”, finaliza.








