Enquanto o mundo discute, nesta sexta-feira, 20, índices de bem-estar no Dia Internacional da Felicidade, nas periferias de Rio Branco a felicidade não é um conceito de autoajuda ou um alvo de consumo. Para muitos, ela é um evento raro e concreto: o barulho de uma sacola de compras chegando à porta ou o alívio de saber que, hoje, haverá o que colocar na mesa.
Essa felicidade “pé no chão” é o que move a contadora Michelle Oliveira, 43, e o policial militar Derineudo de Souza, ambos ativistas sociais. À frente dos projetos ‘Conexão do Bem’ e ‘Amigos Solidários’, eles não entregam apenas mantimentos, eles devolvem a humanidade que a escassez tenta apagar.
O “milagre” no prato
Para Derineudo, a felicidade nas comunidades onde atua é indissociável da dignidade. Ele observa que, enquanto parte da sociedade sonha com viagens e bens materiais, as famílias que ele atende são obrigadas a sonhar “um dia por vez”.
“Muitas vezes, entregar uma cesta básica é visto como um milagre. A pessoa nos diz: ‘eu estava orando, pedi a Deus um milagre para ter alimento hoje’. Para nós, isso é ser o instrumento dessa resposta”.
O impacto é uma via de mão dupla. Derineudo descreve o “brilho no olho” de quem recebe como algo transformador para quem entrega. Não é apenas caridade; é um encontro de almas que saem da experiência maiores do que entraram.
Para o ativista, a verdadeira essência do trabalho social reside na compreensão de que a felicidade, embora universal como objetivo, manifesta-se de formas distintas dependendo da realidade de cada um. Ele acredita que, enquanto o projeto oferece o suporte material necessário, sua missão espiritual é ser a ferramenta que permite ao próximo retomar a capacidade de acreditar no próprio futuro. Sob essa perspectiva de fé e ação prática, ele reflete sobre o propósito que une doadores e beneficiários.
“Cada ser humano tem seu objetivo final, tem seus propósitos, mas todos buscam uma essência em comum, que é ser feliz. Então, seja qual for a felicidade que você busca, com certeza você vai encontrar com muita dedicação, com muita fé em Deus e com muita determinação. Nós buscamos, enquanto Amigos Solidários, realizar sonhos de pessoas que precisam de uma mão estendida, que precisam de um algo que possa dar condições para ela chegar onde elas querem chegar, que é um sonho simples para muitos, que é o de alimentação, material escolar, uma casa digna”, destaca.
Felicidade como dignidade
À frente do projeto Conexão do Bem, Michelle transforma a solidariedade em uma ferramenta de sobrevivência para famílias que enfrentam a invisibilidade social.
Para a ativista, o impacto emocional de uma ação social é imediato e profundo, funcionando como uma via de mão dupla. “É muito forte dos dois lados. Muitas vezes as pessoas se emocionam e choram porque não têm o que comer”, relata a ativista.
Ela relembra um episódio recente e marcante: ao ser chamada em uma residência, encontrou crianças que estavam indo para a escola alimentadas apenas com farinha e água. “Graças a Deus, através da ajuda de amigos, conseguimos levar cestas básicas, frango e ovos de surpresa. Saber que não estamos sozinhos é o que traz o sorriso de volta”.
A ativista defende que, para quem vive em situação de vulnerabilidade, a felicidade está intrinsecamente ligada à dignidade humana. O projeto Conexão do Bem busca ir além da entrega de alimentos, promovendo momentos de lazer e autoestima.
“A felicidade vai muito além do lazer ou consumo. Ela está ligada à dignidade. No Dia das Mulheres, presenteamos mães com semijoias e cestas básicas. Ver a felicidade delas ao realizar um desejo simples me faz profundamente agradecida”.
A atuação de Michelle alcança os momentos mais delicados da vida. Recentemente, ela tem acompanhado a Dona Luzia, uma idosa com câncer terminal que recebe cuidados em casa.
“Eu não entrego só a cesta. Eu estou lá, acompanhando, orientando. Consegui uma enfermeira e uma nutricionista para ver o sorriso no rosto dela. Isso é muito importante para mim”.

Um propósito comum
Seja através do material escolar para uma criança ou da assistência a um enfermo, os dois projetos convergem para uma mesma verdade: a felicidade é uma construção coletiva.
Como define Derineudo, todos buscam a mesma essência, mas para muitos, o caminho é obstruído pela falta do básico. Em Rio Branco, ser feliz hoje significa ter uma mão estendida para atravessar a ponte da invisibilidade.
Sobre a data
Dia Internacional da Felicidade é uma data instituída pela ONU para lembrar que o bem-estar deve ser uma meta universal. De acordo com a edição de 2026 do índice anual de felicidade do instituto Ipsos, divulgada nesta quinta-feira, 19, oito em cada dez brasileiros se declaram felizes.
O índice de 80% revela um crescimento de dois pontos percentuais na comparação com o ano anterior, embora ainda não tenha superado o recorde histórico de 83% alcançado em janeiro de 2023. Com esse desempenho, o Brasil consolida sua posição no cenário internacional, ocupando o sétimo lugar no ranking global entre as 29 nações pesquisadas.