35 ANOS SEM ELIS – Jornal A Gazeta

35 ANOS SEM ELIS

Ontem, 19 de janeiro, completaram-se 35 anos da morte de Elis Regina. Lembro-me bem daquele dia, em 1982. Foi de choque e tristeza imensa para o país.
Elis, que impressionava cantando desde criança; que aos 11 anos já causava sensação na Rádio Farroupilha da sua Porto Alegre; que chegou ao Rio no início dos anos 60; que brilhou nos festivais da canção daquela década; que, ao lado de Jair Rodrigues, foi líder de audiência com o programa O Fino da Bossa da TV Record; que, tão perfeita a sua interpretação, gravava sem repetir; que teve, aos 23 anos, sucesso retumbante no Teatro Olympia, a mais antiga e respeitada casa de espetáculos de Paris; que foi comparada a Ella Fitzgerald e considerada por tantos a estrela-maior de nossa música, se calava.

Incansável buscadora de talentos para abrilhantar seu trabalho, Elis lançou inúmeros compositores, como Milton Nascimento, Ivan Lins, Fagner, João Bosco, Belchior e Renato Teixeira.

Devido ao seu excepcional dom, despertou uma multidão de apaixonados, especialmente no meio musical: Ronaldo Bôscoli, Solano Ribeiro, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Cesar Camargo Mariano, Nelson Mota e muitos, muitos outros.

Edu Lobo, ao vê-la cantar pela primeira vez, gelou com “algo que só os músicos percebiam. Elis tinha um senso harmônico de instrumentista. Sabia quais acordes ficariam melhores, com ou sem acidentes, invertidos ou não, e cobrava seus músicos para que os encontrassem na forma em que sua intuição pedia. ‘Esse não está bom, é quase isso’, dizia aos pianistas”.

Pianista de formação erudita do Zimbo Trio, Amilton Godoy ficou estupefato com a percepção musical de Elis Regina. “Ela cantou uma linha melódica em sete por quatro, um tempo quebrado demais para a cabeça de alguém que nem partitura sabia ler. O que o fez perceber que ‘aquela cabeça não funcionava como a de um canário’. (…) Elis, o quarto instrumentista do grupo, tinha uma interação premonitória com o piano, o baixo e a bateria de Rubinho, com quem se entendia até nas frases mais tortas”.

Em 2015, o jornalista Julio Maria lançou a biografia “Nada será como antes”. Excelente trabalho, com vasta pesquisa, inúmeros entrevistados e transparência. Altamente recomendável, é uma obra à altura da arte de Elis.

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