A fumaça das queimadas, um problema ambiental e de saúde pública – Jornal A Gazeta

A fumaça das queimadas, um problema ambiental e de saúde pública

A época seca é de queimadasna Amazônia. Com as queimadas,inevitavelmente,vem a fumaça. Tudo que fazemos tem consequências. O processo de “limpar” a terra com fogo significa “sujar” o ar com fumaça. Pretendemos neste artigo explicar algunscustos associados à fumaçaque pagamos de uma maneira ou outra.
A fumaça das queimadas contémpartículas e gases de diferentes componentes químicos. As partículas classificam-se pelo tamanho, medido em unidades de milésimas de milímetro(chamadas de micra ou micrômetros).As partículas menoresque 10 micra (MP10) podem ser inaladas e as menoresque 2,5 micra (MP2.5) têm a capacidade de chegar até os alvéolos pulmonares e o sangue .Em outros termos MP10 significa material particulado grosso e MP2.5, material particulado fino.
Medimos a concentração material particulado (MP)em unidades de microgramas por metro cúbico (μg/m3), quer dizer, milionésimas partes de uma grama de MP contidas em um metro cúbico do ar.
Este material partículado é o que vemos no ar e nas imagens de satélite durante as queimadas. As partículas finas da fumaçapodemficar suspensasno ar durante dias. No caso de ventos fortes, como nos períodos de friagens em agosto, a fumaça pode ser transportada por mais de mil quilômetros.Em anos passados houve momentos em que a fumaça veio de queimadas ocorridas em Santa Cruz de la Sierra,na Bolívia, ou do sul do Estado do Amazonas,mas a maior parte do tempo, produzimosaquimesmo a fumaça que vemos e respiramos.
Estudos científicosrecentes identificaram impactos sériosda fumaça sobre a saúde humananas vias respiratórias eno sistema cardiovascular. A fumaça também podecausar câncer de pulmão.Em outras palavras, além de impactos imediatos na respiração, a fumaça pode afetar a saúde de maneira cumulativa, via problemas cardíacos e de câncer.
No sentido qualitativo é claro que a fumaça tem impactos negativos na saúde humana, mas precisamos usar termos quantitativos e comparar com outros impactos para propor soluções. Por exemplo, quanto devemos investir em saneamento básico, em educação, em controle das queimadas para melhorar a saúde pública?
Para quantificar os impactosexistem padrões internacionais da Organização Mundial de Saúde (OMS). Os limites estabelecidos pela OMS para a concentração de PM2.5 é de 10 μg/m3 na média anual e de 25 μg/m3na média diária (no máximodurante 3 dias por ano). Acima destes valores, os estudos indicam que a fumaça causa um aumento mensurável de mortalidade.
Os estudos científicos sobre o tema são válidos, em princípio, para qualquer parte do mundo. Os dados representativos do problema vêm de duas fontes: as medições de concentração de fumaça e a contagem de casos de acometimentos, internações hospitalares e mortes por efeito da fumaça a curto, médio e longo prazo.
Afortunadamente, existem alguns estudos nesta parte da Amazônia que fornecem uma ideia dos impactos. Por exemplo, na segunda quinzena de setembro de 2005,estimamos valores de PM2.5 acima de 400 μg/m3, durante vários dias, ou seja concentrações de fumaça mais de 16 vezes acima do limite da OMS para um dia.
Picos assim são dramáticos, como as crises respiratórias que eles provocam, mas talvez o mais importante sejao efeito acumulativo sobre a deterioração da saúde humana,devido àelevada concentaração de material particulado durante a época seca, ao longo dos anos.
Recentemente instalamos na Universidade Federal do Acre, em Rio Branco,um sensor que mede PM2.5 (dados disponíveis nos sítioswww.acrebioclima.net – Poluição do ar e www.purpleair.com).Durante os meses de janeiro a maio de 2018, a concentração diária foi geralmente abaixo de 10 μg/m3, um bom sinal para a qualidade do ar.
Mas como se pode ver na figura,nos primeiros 15 dias de julho a média de MP2.5 em Rio Branco, indicada pela linha pontilhada, é 26μg/m3, um pouco acima do limite estipulado pela OMS para um dia.Das 8 as 18 horasas concentrações são baixas, mas nas noites, sem a turbulência causada pelo calor do sol, as concentrações sobem acima de 30 μg/m3, níveis que podem afetar pessoas sensíveis à fumaça. Tivemos alivio durante a friagem de 10 de julho, quando ar sem fumaça entrou na região. Mesmo assim, esperamos que as queimadas e fumaçavãose intensificar no resto de julho e nos meses de agosto e setembro.
Precisamos de mais medidas na Amazônia para ter certeza do que respiramos. Mas os dadose informações disponíveissobre fumaça e acometimentos à saúdesão preocupantes e reforçam estimativas do INPE.
A fumaça tem seus impactosna alteração do ciclo hidrológico. Certamente os ecossistemas regionais tambémestão sendo afetados pela fumaça.
Como sociedade, precisamos decidir seos beneficios de “terra limpa” valem a degradaçao que ela produz na saúde e na natureza.

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