A história do massacre de índios no Acre (Parte 1) – Jornal A Gazeta

A história do massacre de índios no Acre (Parte 1)

O texto aqui apresentado faz parte do livro “Dramas da Amazônia”, de autoria do pastor evangélico Sérgio Aparecido Dias, que há mais de 30 anos realiza trabalhos de evangelização na Amazônia. Ele morou em Feijó, Acre, entre 1976 e 1979, ocasião em que conheceu e entrevistou pessoalmente Pedro Biló e falou com muitas pessoas que contaram sobre as atrocidades cometidas por ele alguns anos antes. Baseado nestas informações o Pastor Sérgio Dias escreveu o conto “O Massacre do Lago do Arapapá”. Vale a leitura.

Pedro Biló: O massacre do lago Arapapá

“E a lua prateada testemunhou a extrema covardia do ser humano, embrutecido em sua loucura assassina”

A História é imparcial e fria nos registros e relatos dos personagens. Feitos heroicos e atos degradantes caminham paralelos, ao longo da estrada da vida. Muitas vezes, a linha que delimita heróis e bandidos é muito tênue, e o bom se mistura com o mau, sendo quase impossível separar o joio do trigo.
O que caracteriza um bandido? Qual o perfil do herói?
Se, para a justiça, todo matador é assassino e, conseqüentemente é um criminoso, talvez não o seja para a comunidade onde mora. Matar em defesa das terras ameaçadas é um ato heroico ou um ato criminoso? Exterminar um povo selvagem para ficar com suas terras também é crime?
Caso afirmativo, por que consideramos os Bandeirantes como heróis e lhes homenageamos, batizando cidades e logradouros públicos com os seus nomes?
Quem foi Raposo Tavares? Quem foi Bartolomeu Bueno da Silva, conhecido como Anhangüera (diabo velho)?
Em duas investidas conquistadoras pelas terras brasileiras (incursões essas chamadas bandeiras), Raposo Tavares destruiu aldeias jesuítas em Guayra, na fronteira com o Paraguai, aprisionando centenas de indígenas e matando outras tantas centenas, em 1629, com o auxílio de outro bandeirante, Manuel Preto. Entre 1648 e 1651, saiu de São Paulo e fez incursões no Amazonas e no Pará, chegando ao Peru. Nessas investidas conquistadoras, extinguiu tribos inteiras e escravizou os índios sobreviventes nessas regiões. Hoje, seu nome está associado ao heroísmo, à coragem e à honra. Seus crimes o colocam na galeria dos heróis nacionais, por matar os índios e tomar-lhes as terras de seus ancestrais.
E o que dizer de Domingos Jorge Velho? Esse bandeirante, entre outras coisas, adentrou pelo nordeste brasileiro entre 1695 e 1697, destruindo aldeias indígenas no Maranhão e no Pernambuco, tornando centenas deles em seus escravos e carregadores de sua bagagem. Participou ativamente do cerco ao Quilombo dos Palmares, sendo um dos responsáveis pela morte de Zumbi dos Palmares.
Esses homens e todos os outros bandeirantes são hoje festejados como heróis, mas a questão é: eles são heróis realmente?
Esse breve relato das atrocidades de alguns dos bandeirantes, a bem da verdade todos eles escravistas e racistas, serve de pano de fundo para a história que agora passo a narrar: a história de Pedro Biló, um dos homens de confiança do coronel José Gurgel Rabelo, o temido Zeca Rabelo, todo-poderoso do rio Envira, no estado do Acre.
Ele (Pedro Biló) também se enquadra no perfil dos bandeirantes, já que desbravava regiões em busca de seringais e castanhais, fazendo a necessária “limpeza étnica”, matando índios e incendiando suas aldeias. Entre outras nações índias, certamente os Caxinauá (povo morcego) foram os que mais sentiram o peso de sua mão e a pontaria certeira de seu rifle.
Sua área de atuação se estendia desde o atual município de Feijó, descendo até a foz do Envira, no rio Juruá, e subindo uns dois dias de viagem (num motor de 33 HP) até acima do seringal Olinda do Maciel, fundado pelo coronel Maciel, por volta de 1905, em terras onde viviam, outrora livres, mais de 1.000 índios Caxinauá.
Pedro Biló foi o responsável direto pelo decréscimo desse expressivo número de nativos, dizimando-os a tal modo que, em 1976, os dois aldeamentos principais dos Caxinauá se resumiam em algumas poucas dezenas de índios, a maioria já corrompida pela bebida e pela prostituição. E, apesar de seus quase 70 anos, a simples pronúncia de seu nome fazia os índios tremerem de pavor. E as lendas o tornavam mais e mais misterioso.
– Pedro Biló tem parte com o cão, seu moço! Rasteja igual cobra e ninguém vê ele de noite, não! Só enxerga, quando ele já tá enfiando a faca na goela, que Deus me livre e guarde!
– Ele tem reza braba e se apega com São Cipriano, cruz credo!!!
– O Biló? Ah, o seu Pedro é gente boa, é só não bulí com ele!
Opiniões contraditórias sobre um homem contraditório, cujas ações são louvadas por uns e repudiadas por outros.
Quem era Pedro Biló? De onde viera até chegar ao Acre? Uns diziam que era cearense, já outros juravam que ele era acreano da gema mesmo, cobra criada da região.
Quanto ao próprio Biló, limitava-se a sorrir de modo enigmático, alimentando ainda mais as lendas em torno de sua pessoa. E as histórias que se contavam sobre ele eram de arrepiar e impunham respeito e medo.

[Artigo continua]

Para saber mais: “Dramas da Amazônia: contos de arrepiar”, de autoria de Sérgio Aparecido Dias, publicado em 2012 pela Editora Biblioteca 24horas. O livro é uma coletânea de contos resultantes da experiência pessoal do autor, que recolheu centenas de relatos e acontecidos ao longo dos rios amazônicos por onde trabalhou fazendo serviço de evangelização. Para complementar as informações, o autor fez pesquisas e consultas aos setores acadêmicos, ligados à literatura e ao folclore amazônico. Alguns nomes de lugares e pessoas citados no conto foram alterados para proteger pessoas e o autor do texto. O livro está disponível para aquisição no site da Amazom.com

 

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